Por que a Argentina está dividindo os torcedores de futebol como nenhuma outra seleção da Copa do Mundo


Para alguns torcedores que acompanham esta Copa o cálculo é simples: apoiar quem joga contra a Argentina. Ao longo do torneio, isso significou vestir o verde da Argélia, o azul de Cabo Verde ou o vermelho da Suíça. Até mesmo a frequentemente difamada Inglaterra recebeu um impulso nas promessas globais de apoio nas redes sociais na semana passada, antes do confronto semifinal. E na final de domingo, isso pode significar vestir a camisa vermelha da Espanha.

A Argentina é um dos times de futebol mais bem-sucedidos e reconhecidos, mas também um dos mais polarizados. Do desafio de Diego Maradona à celebridade global de Lionel Messi, a Albiceleste há muito inspira devoção no país e no exterior, juntamente com irritação, inveja e ressentimento por parte dos rivais.

A lenda de Maradona

A identidade futebolística da Argentina é moldada por jogadores individuais de renome mundial.

Maradona forneceu à Argentina o seu mito esportivo mais desafiador, levando o país ao título da Copa do Mundo de 1986. Os seus dois golos frente à Inglaterra nos quartos-de-final – o infame ‘Mão de Deus’ e uma jogada a solo mais tarde eleita o ‘Gol do Século’ – continuam a ser centrais na narrativa futebolística argentina.

O futebolista argentino Diego Maradona saltou sobre o goleiro inglês Peter Shilton e marcou um gol com a “Mão de Deus”. | Crédito da foto: Getty Images

O futebolista argentino Diego Maradona saltou sobre o goleiro inglês Peter Shilton e marcou um gol com a “Mão de Deus”. | Crédito da foto: Getty Images

A lembrança do gol da Mão de Deus ainda machuca muitos torcedores ingleses, enquanto os argentinos costumam vê-lo como parte de uma história maior de desafio e vingança após a Guerra das Malvinas de 1982, na qual a Grã-Bretanha manteve o controle do disputado território insular. Após a vitória da Argentina nas semifinais da Copa do Mundo de 2026 sobre a Inglaterra, os jogadores agitaram uma faixa que dizia “Las Malvinas Son Argentinas” (“As Malvinas são argentinas”), em referência à longa disputa pelas ilhas, em aparente violação das regras da FIFA que proíbem declarações políticas.

O efeito Messi

Lionel Messi deu à Argentina um ícone diferente de Maradona: mais silencioso em público, mas com maior alcance global e longevidade.

Ele ganhou quase todas as grandes honras em nível de clube com o Barcelona, ​​​​tornando-se o rosto de um time dominante, embora esse sucesso tenha feito dele um alvo para torcedores rivais. A sua rivalidade com Cristiano Ronaldo, de Portugal, acrescentou outra camada, dividindo o futebol global em campos de Messi e Ronaldo.

Lionel Messi comemora após marcar um gol nas eliminatórias da Copa do Mundo de 2018. | Crédito da foto: AP

Lionel Messi comemora após marcar um gol nas eliminatórias da Copa do Mundo de 2018. | Crédito da foto: AP

Depois de anos sendo comparado a Maradona e atormentado por não ter conseguido um título de torneio importante para seu país, Messi levou a Argentina ao título de 2022 no Catar.

Sua presença contínua fez da Argentina um ímã para fãs, inclusive na Índia e em Bangladesh, a muitos quilômetros da Argentina. Mas outros se cansaram da narrativa centrada em Messi e do entusiasmo em torno dele.

Vizinho complicado

A imagem da Argentina na América Latina é complexa. O país há muito que se considera culturalmente distinto, moldado por fortes influências europeias e por uma cultura futebolística que muitas vezes trata a vitória como prova de excepcionalismo nacional. Essa autoconfiança às vezes é admirada, mas em algumas partes da região também alimenta um estereótipo de arrogância argentina.

LER: Lionel Messi elogiou Lamine Yamal antes da final da Copa do Mundo FIFA de 2026

Torcedores de muitas nações usam os torneios para mostrar o orgulho nacional com tambores, bandeiras e cantos, mas o fanatismo da Argentina às vezes pode parecer extremo. E esse nacionalismo pode desviar-se para um território mais feio.

Um comentarista de TV argentino no início deste mês chamou os mexicanos de “nojentos” e acusou-os de invejar os argentinos “não apenas no futebol, em tudo”, disse a presidente mexicana Claudia Sheinbaum, que chamou de “ultrajante”.

O streamer IShowSpeed ​​​​foi recentemente abusado racialmente por um torcedor argentino enquanto assistia ao jogo nas arquibancadas. | Crédito da foto: REUTERS

O streamer IShowSpeed ​​​​foi recentemente abusado racialmente por um torcedor argentino enquanto assistia ao jogo nas arquibancadas. | Crédito da foto: REUTERS

Nos estádios, alguns torcedores ainda entoam uma canção ofensiva zombando das origens africanas de muitos jogadores franceses, canção pela qual os jogadores argentinos em 2024 se desculparam depois de cantar. Outros incidentes envolvendo racismo ou tumultos por torcedores argentinos foram compartilhados nas redes sociais ou reclamados por outros torcedores.

Rivalidades profundas

A rivalidade mais profunda da Argentina é com o Brasil, enraizada em décadas de competição entre as duas nações mais bem-sucedidas da América do Sul.

Os fãs de futebol, vestindo as camisas do Brasil e da Argentina, fazem um dia de campo em Karukappalli, perto de Kaloor, em Kerala. | Crédito da foto: VIPIN CHANDRAN

Os fãs de futebol, vestindo as camisas do Brasil e da Argentina, fazem um dia de campo em Karukappalli, perto de Kaloor, em Kerala. | Crédito da foto: VIPIN CHANDRAN

Na Copa do Mundo de 2014 no Brasil, os torcedores argentinos gritaram “Brasil, decime que se siente” (Brasil, diga-me como se sente), zombando do anfitrião enquanto aplaudiam o progresso da Argentina.

As tensões com o Chile intensificaram-se desde que venceram a Argentina nas finais da Copa América de 2015 e 2016, ambas nos pênaltis.

O México e a Argentina também desenvolveram uma relação intensa no futebol, alimentada por repetidas reuniões da Copa do Mundo e debates nas redes sociais sobre desempenhos. O estilo de jogo da Argentina – definido pelo virtuosismo e astúcia – pode ser uma alegria de assistir, mas alguns também o consideram contra os ideais do fair play.

Para alguns torcedores, “qualquer um menos a Argentina” tornou-se a posição padrão do torneio.

Postado em 18 de julho de 2026



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