A tecnologia está arruinando a Copa do Mundo?


O futebol sempre acolhe a inovação, embora com relutância.

Na década de 1990, regra de passe para trás mudando a forma como as equipes são construídas na retaguarda. Há uma década, tecnologia na linha do gol finalmente resolveu a discussão sobre se a bola havia cruzado a linha.

Hoje, a evolução da tecnologia de jogos vai além de resultados isolados. Os árbitros assistentes de vídeo, a tecnologia de impedimento semiautomática e as bolas equipadas com sensores mudaram fundamentalmente a forma como as partidas são disputadas, arbitradas e lembradas.

A Copa do Mundo de 2026 se tornou mais um lugar para comprovar essa inovação. As recentes eliminatórias mostram que a tecnologia não é mais um ator coadjuvante. Em muitos casos, tornou-se o principal protagonista do jogo.

A vitória de Portugal sobre a Croácia, por 2-1, nos 16 avos-de-final foi talvez o exemplo mais claro do torneio. A Croácia pensou ter marcado um empate dramático no final do jogo, mas viu-o anulado após uma revisão do VAR.

A decisão depende não só do ângulo do replay, mas dos dados coletados pelo microchip na bola, que detecta leves toques que alteram a sequência dos ataques e confirmam as infrações de impedimento. Portugal seguiu em frente, enquanto o Campeonato do Mundo da Croácia chegou a um fim abrupto.

O gol do empate de Josko Gvardiol, 13 minutos antes dos acréscimos, foi anulado depois que foi determinado que Igor Mantanovic havia dado uma leve olhada com a cabeça – possivelmente até com as pontas do cabelo – na preparação para o gol.

Do ponto de vista técnico, o sistema funciona. A tecnologia utilizada antes dos torneios transmite informações indisponíveis a olho nu e permite que os árbitros apliquem as Leis do Jogo com incrível precisão.

Isto ocorre depois de a FIFA ter investido anos no desenvolvimento de ferramentas que combinam rastreamento de jogadores, inteligência artificial e sensores de bola para reduzir erros humanos em momentos críticos.

Até agora, a Copa do Mundo esteve praticamente livre de resultados controversos. Mas as eliminatórias destacaram uma série de controvérsias ao longo da semana passada – que nunca teriam sido questionadas em Copas do Mundo anteriores, com menor tecnologia.

Tecnologia versus Emoção

O futebol, dizem os críticos, nunca se trata apenas de precisão. O resultado Portugal-Croácia gerou debate enquanto muitos torcedores lutavam para conciliar a tecnologia monitorada com o que vivenciavam emocionalmente.

A FIFA confirmou que o empate da Croácia foi corretamente descartado por impedimento devido à tecnologia alojada na bola Adidas Trionda da Copa do Mundo. A FIFA disse que “os sensores colocados na bola Trionda são capazes de determinar qualquer toque, exibido aos telespectadores na transmissão como um ‘gráfico de batimentos cardíacos’ e permitir aos árbitros um nível de dados sem precedentes para tomar decisões rápidas e precisas”.

Porém, a diferença entre um gol legal e uma eliminação se resume a um toque que quase ninguém no estádio vê em tempo real. O fato de a bola ter sido tocada pelo cabelo de Mantanovic – nunca mudando a trajetória da bola – foi visto pelos críticos como uma mudança fundamental no jogo.

“Todos estes resultados tiram a alegria do futebol”, afirmou o seleccionador da Croácia, Zlatiko Dalic.

O seleccionador de Portugal, Roberto Martínez, teve uma opinião diferente, dizendo: “A bola agora tem um chip e é muito claro que foi por isso que o VAR interveio. Não é uma opinião subjectiva”.

A tecnologia sem dúvida corrigiu os erros que outrora moldaram o torneio. A tecnologia da linha do gol eliminou a incerteza sobre se um gol deveria contar. As revisões de impedimento semiautomáticas reduziram os atrasos e aumentaram a consistência. O VAR anulou casos de erro de identidade, pênaltis perdidos e faltas perigosas que os árbitros não conseguiram ver do canto do campo.

A tecnologia não eliminou a polêmica do futebol. Na verdade, mudou a questão de saber se os árbitros veem os incidentes para se a tecnologia é usada de forma correta e consistente.

Vendo vermelho

Os Estados Unidos experimentaram o outro lado dessa mudança tecnológica durante a vitória por 2 a 0 sobre a Bósnia e Herzegovina nas oitavas de final. O atacante Folarin Balogun recebeu cartão vermelho depois que o VAR levou o árbitro a revisar o desafio. O replay convenceu os árbitros de que o tackle atingiu o limite para uma falta grave, deixando os americanos terminarem a partida com 10 homens.

O incidente reacendeu um dos debates em andamento no futebol sobre a tecnologia de replay. Imagens em câmera lenta revelam detalhes muitas vezes ocultos pela velocidade ao vivo, mas também podem fazer com que um desafio pareça mais intenso ou deliberado do que o jogador que o vivencia em tempo real. A tecnologia pode fornecer provas adicionais, mas a interpretação humana ainda determina o resultado final.

Ao contrário da percepção popular, o VAR não elimina a subjetividade. Os árbitros continuam a avaliar a intenção, a força excessiva e o contexto que envolve cada incidente. A tecnologia fornece melhores informações, mas não elimina a necessidade do julgamento humano. Como resultado, a polêmica não desapareceu. Em vez disso, evoluiu.

Também é verdade que o futebol ganhou precisão, mas perdeu alguma espontaneidade. Essa troca continua a ser a questão definidora do futebol moderno. O objetivo nunca é a perfeição por si só, mas a justiça.

Alguns torcedores estão dispostos a voltar a uma época em que erros oficiais óbvios decidiam as partidas. Ao mesmo tempo, poucos querem que a tecnologia ofusque os jogadores cujas performances deveriam definir o evento.

Clemente Lisi é o autor “A Copa do Mundo: A História do Maior Evento Esportivo do Planeta, Edição 2026.



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