O brilho da seleção nesta Copa do Mundo – e agora suas esperanças repousam inteiramente – é uma prova da relação complicada e torturada entre o Brasil e seu público obcecado por futebol.
As coisas sempre foram complicadas entre Vinicius Junior e seu reino. Ele foi um prodígio que trocou o Flamengo pelo Real Madrid aos 16 anos e jogou 17 minutos no futebol sênior, e as conversas com os brasileiros nesta Copa do Mundo testemunham quantos ainda não o perdoaram.
“Todos querem jogar no Real Madrid ou no Barcelona”, diz uma mulher. ‘Eles chegam lá e esquecem quem são e de onde vieram.’
A bagagem que vem por estar no Flamengo, o clube brasileiro mais favorecido pelos torcedores, mais rico e mais focado na mídia, é tão subestimada que o resto de nós é caluniado por causa disso.
Muitos em todo o Brasil parecem estar esperando que Vinicius fracasse quando ele partir. Suas postagens foram recebidas com abusos nas redes sociais, alguns deles racistas.
As pessoas o chamavam de Nguebinha, ‘pequeno Ngueba’ – uma referência ao atacante que se mostrou muito promissor no início de sua carreira no Flamengo, mas nunca atingiu seu potencial. Analistas de mídia declararam que Vinicius nunca jogaria pelo Real Madrid e que Rodrigo, que trocou o Santos pelo Real, estaria em melhor situação.
Vinicius Jr foi a estrela do Brasil na Copa do Mundo deste verão – mas não teve o apoio total da torcida sul-americana.
Para muitos brasileiros, Neymar Jr. ainda é o craque do país e pode estar à margem do time de Carlo Ancelotti.
O Brasil enfrentará o Japão nas oitavas de final, em Houston, na noite de terça-feira, e buscará inspiração em Vinicius.
Nem é preciso dizer que ele provou que muitas coisas estavam erradas. No entanto, essa ambiguidade permanece, e parte dela ainda se resume a repulsa. Como sempre no Brasil contemporâneo, a presença vasta e multifacetada de Neymar faz parte da equação.
Neymar, de 34 anos, está agora afastado e sua contribuição para esta Copa do Mundo fará dele um grande substituto. Mesmo assim, muitos brasileiros ainda o divinizam, e não o jogador que ele já foi. Seu sucessor natural – o ‘novo Neymar’ – é outra razão pela qual alguns acham difícil gostar de Vinicius.
No entanto, as evidências apontam para que ele carregue o Brasil, que inicia a fase de mata-mata com uma partida complicada contra o Japão aqui esta noite.
Tal como Lionel Messi nos seus anos áridos, lutando para ser o que Diego Maradona foi para a Argentina, ele é movido pela saudade dos afetos perdidos do seu país. Messi também era visto como um jogador que foi cedo demais para a Espanha. “Espero um dia poder fazer todos os brasileiros felizes”, disse Vinicius em entrevista. Continua a ser uma aspiração.
Em Carlo Ancelotti, ele tem um treinador que aprecia e conhece profundamente o seu futebol, e desenhou uma seleção brasileira para ajudá-los a brilhar como fizeram em Madrid.
A fase de grupos é uma prova de que Ancelotti criou o ambiente certo para Vinicius, libertando-o de funções defensivas para que possa aproveitar as oportunidades de ataque.
Quando a Itália foi derrotada nos pênaltis na final da Copa do Mundo de 1994, em Pasadena, Ancelotti tornou-se assistente técnico da Itália e foi capaz de dar à dupla força de ataque de Romário e Bebeto a mesma liberdade que Vinicius agora tem.
A principal diferença era que aqueles atacantes, integrantes de um elenco que terminou como vice-campeão quatro anos depois, eram de classe mundial. A atual seleção brasileira não tem um camisa 9 que se encaixe nessa descrição.
‘Eu faria 10 vezes mais se quisesse’, disse Vinicius. Se o Brasil conseguir chegar perto do troféu que antes parecia ser seu por padrão, ele encontrará o amor que tanto deseja.
Caso contrário, ele terá que assumir a culpa.
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