Quando a seleção argentina entrou no vestiário após vencer a Suíça por 3 a 1, comemorou cantando A Quarta Estrela, o hino nacional não oficial do país.
“Pelas Malvinas, por Diego”, gritaram Lionel Messi e seus companheiros, chamando as Ilhas Malvinas – conhecidas como Ilhas Malvinas na Argentina – e o jogador de futebol Diego Maradona.
Os gritos correram por toda a Argentina durante este torneio, mas ganharam um novo significado quando foi confirmado que a semifinal da Copa do Mundo de quarta-feira colocaria novamente a Argentina contra a Inglaterra.
Quase quatro décadas depois do golo da “Mão de Deus” de Maradona e do seu célebre remate a solo terem ajudado a Argentina a vencer um dos jogos mais políticos do futebol – aquele que se seguiu à Guerra das Malvinas de 1982 entre os dois países – a meia-final de quarta-feira volta a ser discutida, na Argentina e na Inglaterra, mais de uma partida.
“Por trás da seleção argentina há pessoas que ainda carregam dor, não querem esquecer sua história e querem vencer no campo de futebol”, disse Pablo “Palmito” Quintana, o músico que escreveu a música, explicando por que colocou “Malvinas” na letra. Quintana, 30 anos, não sobreviveu à luta nem às quartas de final em 1986, mas admite que esses jogos “não foram apenas jogos”.
“Os Jogos de 1986 foram um bálsamo para todos os que viveram a guerra”, disse Aldo Leiva, veterano da guerra das Falklands/Malvinas e membro do Congresso Peronista.
“O futebol tem regras e árbitros. Este não foi o caso na guerra. Muitos argentinos viram a vitória – e a ‘mão de Deus’ – como uma forma de justificação porque acreditavam que a Grã-Bretanha tinha agido fora das regras, especialmente ao afundar o General Belgrano”, disse, referindo-se ao navio argentino que os britânicos cortaram fora da zona de exclusão. O ataque matou 323 trabalhadores.
Víctor Hugo Morales, jornalista uruguaio cuja cobertura ao vivo da partida de 1986 se tornou parte do folclore argentino, disse que a memória daquela partida “ressoou” novamente.
Disse que, assim como os jogadores argentinos de hoje, o próprio Maradona “insistiu que era apenas um jogo de futebol (antes da partida). Mas, no fundo, não havia dúvida de que a guerra das Malvinas estava no coração de todos”.
“Argentina e Inglaterra tornaram-se comuns. Antes de 1986, era apenas mais um jogo. A partir daí, carregou um peso político e emocional muito além do futebol”, disse Morales, que na época era conhecido por Maradona como um “saco cósmico”.
A mídia argentina tendia a ser simbólica. Crónica, canal de TV conhecido por suas manchetes engraçadas, fez uma prévia da partida com legendas como “Argentina contra piratas ingleses”, “Messi, tem M para Malvinas” e “Diego, nos dê uma mão”. O diário esportivo Olé focou no que descreveu como um bom presságio: “É oficial: a Argentina enfrentará a Inglaterra de azul, como em 1986.
Várias fontes argentinas também relataram que, antes das semifinais, o clube de futebol de Godoy Cruz pendurou em seu estádio uma faixa que os torcedores haviam tirado dos torcedores ingleses durante a Copa do Mundo de 2014, o que foi visto como uma provocação.
A rivalidade também aparece nos repetidos elogios do presidente de extrema direita, Javier Milei, a Margaret Thatcher, a primeira-ministra britânica que foi a inimiga pública número um da Argentina durante a guerra de 1982. “Para muitos argentinos, a derrota da Inglaterra é vista como uma repreensão política a Milei”, disse Morales.
depois de promover o jornal
Na Argentina, as ilhas continuam a ser um lugar assombrado. Mesmo antes da guerra, as crianças aprendiam desde cedo que as Malvinas faziam parte da terra da nação.
“O problema das Malvinas está na cabeça dos argentinos”, disse Morales. “Os britânicos provavelmente não pensaram nessas ilhas até a guerra. Para eles, (contra a Argentina) teve muito peso desde 1986 por causa do que aconteceu naquele jogo – o handebol e outras bolas brilhantes de Diego – mas não as Malvinas”, disse ele.
Daniel Filmus, ex-político argentino e secretário para assuntos relacionados às Malvinas, disse que a reivindicação das ilhas pela Argentina faz parte de sua identidade nacional.
“Os sentimentos de muitos argentinos em relação às Malvinas são expressos em canções de futebol. Tanto o hino nacional que fez sucesso na última Copa do Mundo quanto a canção deste ano fazem referência às ilhas”, disse.
“A Argentina é um dos poucos países que, quase 200 anos depois de perder território, ainda mantém viva essa reivindicação”, disse ele. “Os argentinos levam isso para onde quer que vão.”
Embora o conflito possa não permanecer na memória colectiva do Reino Unido, o jogo de quarta-feira já garantiu que o conflito das Malvinas também estará nas manchetes dos meios de comunicação britânicos. O Daily Telegraph relatou os comentários de Pablo Quirno, ministro das Relações Exteriores da Argentina, depois de ter se referido aos habitantes das Ilhas Malvinas como uma população “cultivada artificialmente” em um texto solicitando negociações no território.
Também houve polêmica sobre o ex-jogador de futebol inglês Gary Lineker – artilheiro da Copa do Mundo de 1986 – mencionar as ilhas argentinas, as Malvinas, com seus nomes em inglês em seu podcast, provocando o ridículo do apresentador digital Rupert Murdoch Talk, Mark Dolan, que disse que era “hora de mostrar aquele cartão vermelho”.
O jornal The Sun notou que os jogadores argentinos tentaram focar no futebol. “Sabemos o que o jogo contra a Inglaterra significa para o nosso país, mas é um jogo de futebol e vamos tentar resolvê-lo da melhor forma possível”, afirmou o médio Leandro Paredes.