Shaquem Griffin: ‘Carta para os dirigentes da NFL’

No sábado (3), Shaquem Griffin impressionou no NFL Combine. O jogador fez o ’40 yard dash’ (tiro de 40 jardas) em 4.38 segundos, o mais rápido da sua posição desde 2003. Sim, ele é ‘aquele jogador que não tem uma mão’ que você deve ter ouvido falar por aí. Em texto ao The Players Tribune, Shaquem conta como superou os obstáculos, exalta os momentos difíceis que teve e manda seu recado aos General managers dos times da NFL.

O irmão gêmeo de Shaquil Griffim (Seattle Seahawks) se mostra bem lúcido sobre sua condição e sobre o comportamento dos técnicos que não o conheciam. Se ele vai se mostrar um grande linebacker como profissional é difícil responder. Inegavelmente, ele ainda vai precisar provar que pode atuar em alto nível. Ele sabe que os olhos estarão voltados para ele a todo momento e tem a convicção que pode agradar, porque já passou por isso antes.

Traduzimos a carta dele aos dirigentes da liga. É o típico texto de superação que você já leu por aí, mas que sempre deve ser lido novamente, em qualquer momento da vida. Causa reflexão e, com certeza, vai ajudar muitas pessoas.

Caros dirigentes (GM) da NFL,

Tudo o que você precisa saber sobre mim você pode aprender voltando para quando eu tinha oito anos.

Então, me deixe levá-lo até lá.

Era uma sexta-feira à noite em São Petesburgo, na Flórida, e eu estava dormindo – ao menos, estava tentando. Minha cabeça estava a mil porque meu irmão gêmeo, Shaquill, e eu tínhamos um jogo no dia seguinte. Ele estava no quarto comigo, e ele também não conseguia dormir, porque, se ganhássemos, estaríamos nos playoffs. Eu estava com minha jersey azul royal – isso mesmo, ia dormir com a camisa do jogo. Quando era criança, sempre dormia com minha jersey na noite antes das partidas. Assim que me preparava para os jogos todos os sábados.

Na manhã seguinte, quando chegamos ao campo, tivemos que nos pesar – no futebol americano juvenil há restrições de peso. Não sei se eles ainda fazem desse jeito, na época cada treinador pesava os jogadores adversários e, se você estivesse mais pesado do que o máximo e mais leve do que o mínimo, não poderia jogar. Tive que perder uns quilos para bater o peso. Eu sabia que estava tudo certo.

No entanto, quando o treinador adversário me colocou na balança, ele disse que eu estava muito pesado.

Disse que eu não poderia jogar.

Fiquei com o coração partida, sabe? Quero dizer, fiquei devastado. Meu treinador colocou o braço ao meu redor, me disse que tudo ficaria bem e me levou de volta ao vestiário para ele mesmo me pesar.

Desta vez, não tinha excesso de peso.

Pensei que a balança do outro treinador poderia estar quebrada ou algo assim. Não me ocorreu que alguém poderia deliberadamente tentar me manter fora do jogo. Eu era apenas uma criança. Muito jovem para entender que as pessoas tinham seus motivos.

Então, meu treinador me levou de volta ao cara que me pesou para que pudéssemos fazer novamente, e – isso foi há muito tempo, então não lembro exatamente o que foi dito, mas, basicamente, o treinador adversário disse que não era sobre o meu peso.

Era sobre minha mão.

Ele disse que não deveriam me deixar jogar.

Porque futebol americano é para pessoas com duas mãos.

Imagine, eu nem conhecia esse cara. Então eu não sabia por que ele tinha um problema comigo. Eu estava jogando há alguns anos e eu estava muito bem, então talvez ele quisesse manter um dos melhores jogadores da nossa equipe fora do campo para que seu time tivesse uma chance melhor de vencer. Eu, honestamente, não sei.

Mas esta foi a primeira vez que tive que lidar com alguém me dizendo que eu não deveria – ou não poderia – fazer algo por conta da minha mão. Como se eu fosse defeituoso ou alguma coisa assim. Como se eu não pudesse pertencer a aquilo.

E foi assim que percebi que sempre teria que provar que as pessoas estavam erradas.

Eu não vou entrar em uma explicação mais detalhada da minha condição, eu nasci com algo que impediu o desenvolvimento dos dedos da minha mão esquerda. Ou falar sobre quando tinha quatro anos e tentei cortar meus próprios dedos com uma faca de cozinha porque estava com uma dor constante. Ou sobre quando eu peguei minha mão esquerda amputada pouco depois de tirá-la. Isso é o que você provavelmente já sabe de qualquer maneira – e se você não sabe, pode dar um Google. A história está por aí.

E não é uma história de soluços ou algo assim. Não é nem uma história triste, pelo menos não para mim.

É só… a minha história.

Eu sou abençoado por ter uma casca grossa. Mas sou ainda mais abençoado por ter uma família que nunca me deixa dar desculpas e que me criou para nunca ouvir ninguém que me dissesse que não podia fazer algo – especialmente por causa da minha mão.

Meu pai costumava construir todos os tipos de aparelhos para me ajudar a levantar pesos. Nós tínhamos uma coisa – a chamamos de “o livro”, e era basicamente um pedaço de madeira embrulhado em um pano que eu colocava contra uma barra com meu braço esquerdo quando eu estivesse pressionado, para que meus braços ficassem nivelados. Tivemos outro bloco que eu usei para coisas como flexões, e eu tinha correntes e outras tiras para segurar halteres.

E meu pai costumava trabalhar duro comigo, Shaquill e nosso irmão mais velho, Andre.

No nosso quintal, havia pilhas de blocos de concreto com uma vara em cima, como um obstáculo. E, quando corríamos as rotas, tínhamos que saltar sobre o obstáculo e fazer isso em outros obstáculos no meio da rota. Meu pai nos jogava a bola, e com força, diretamente em nosso peito. Toda vez que nós dropávamos, ele dizia: “Nada vem fácil”.

Esse era o lema dele – não apenas para mim, mas para todos nós.

Nada vem fácil.

Cara… odiava esses treinos. Definitivamente, havia momentos em que queria sair. Às vezes, quando meu pai jogava a bola com muita força e batia no meu peito ou no rosto, eu pensava: “não quero mais fazer isso”.

Mas ele nunca me deixou sair.

Foto: CHRIS ZUPPA/TAMPA BAY TIMES/ZUMA PRESS

“Você vai me agradecer um dia”, ele dizia.

Na época, eu não acreditava nele. Agora, eu entendo, e agradeço por tudo o que tenho, porque tudo isso no quintal me ajudou a desenvolver a mentalidade de que eu posso lidar com qualquer coisa.

Foi o que eu fiz naquele dia, quando esse jovem treinador me disse que não deveria estar jogando futebol.

Acabaram permitindo que eu jogasse naquele dia, e eu me lembro como se fosse ontem. Estava perto do final do jogo e estávamos à frente. Estava jogando de linebacker. O recebedor correu uma rota slant, e eu li a jogada, corri para a rota, mergulhei no ar e peguei a bola, me virando de costas para protegê-la antes de bater no chão. Foi a primeira vez que interceptei um passe em um jogo, e basicamente selou a vitória para nós e nos enviou para os playoffs.

Levantei e corri pelo campo, segurando a bola no ar com a minha mão boa e pensando que, a partir desse momento, ninguém nunca poderia me dizer que eu não pertencia a um campo de futebol.

E ninguém nunca poderia me dizer que eu não poderia ser ótimo.

Fui com essa mentalidade até o ensino médio.

Ficavam me provocando por causa da minha mão, mas, na maioria das vezes, eu apenas ignorava. No campo, comecei a me ajustar lentamente ao tipo de jogo, mas cresci para me tornar um líder e um capitão da equipe.

Mas, aqui mesmo, em vez de falar sobre o sucesso que tive, acho que prefiro falar sobre alguns dos momentos mais difíceis da minha vida – os pontos mais baixos. Porque eu acho que é quando o verdadeiro personagem se mostra. É quando você descobre quem são realmente as pessoas – do que elas realmente são feitas.

E os pontos mais baixos para mim vieram quando eu estava na faculdade.

Fui para a UCF (University of Central Florida) pensando que iria jogar como novato, e todos iriam saber meu nome. Eu estava tão confiante.

Mas não foi assim.

No meu ano de calouro, virei um ‘redshirt’*. No ano seguinte, joguei bem na primavera e fiz meu caminho para entrar no elenco.

*Explicação: Redshirt é o jogador que ganha um ano a mais de elegibilidade, mas não pode atuar na temporada em que ganhou a ‘camisa vermelha’. Isso acontece mais nos primeiros anos, mas também pode acontecer com jogadores segundoanistas ou mais veteranos, por conta de lesões. 

Então, logo antes do início da temporada contra o Penn State, caí para terceiro reserva.

Na semana seguinte, desci para o scout team.

E ninguém me disse por quê.

Sempre que perguntava a um dos treinadores por que eu estava sendo rebaixado, eles simplesmente dizia coisas como “Continue trabalhando” e “Mantenha-se focado” e “Seu tempo virá”.

Então, é basicamente o que eu fiz pelos meus primeiros três anos na UCF.

Acho que a parte mais difícil desses últimos anos era assistir Shaquill jogar aos sábados. Nós sempre nos dissemos desde que éramos crianças que, não importa o que qualquer um de nós estivesse fazendo, vivemos um pelo outro. Seu sucesso é o meu sucesso, e vice-versa.

Eu não viajei muito com a equipe nesses primeiros anos. Quando chegou a hora da equipe pegar a estrada, meu irmão e nossos dois companheiros de quarto, que também estavam na equipe, foram todos. Então, aos sábados, era só eu, sozinho em nosso dormitório assistindo o jogo. Às vezes, o jogo não estava nem na ESPN ou FOX ou qualquer coisa, então eu tinha que procurar algum site no meu laptop. Eu ficava sentado no sofá, sozinho, tudo em silêncio, exceto pelos comentários do jogo, enquanto eu estava assistindo meu irmão jogar… e vivendo isso através dele.

Eu costumava contar para minha mãe todo o tempo que a faculdade era um lugar negativo para mim. Não UCF em geral – Eu amo minha escola e eu vou representá-la para sempre. Era só… aquele dormitório, cara.

Unidade 412, quarto C.

Passei tanto tempo desses três primeiros anos em Orlando sentado naquele quarto, perguntando-me por que não tinha a oportunidade de jogar aos sábados. Chegou ao ponto em que esse dormitório estava tão cheio de vibrações negativas, porque praticamente guardava tudo para mim. Eu realmente não conversei com ninguém sobre o que eu estava sentindo – especialmente não falei para Shaquill.

É um lugar difícil de entrar, sabe? Quero dizer, meu irmão gêmeo estava fazendo o que eu queria fazer. O sonho estava acontecendo para ele, e ele estava ganhando, trabalhando duro e mostrando o que sabia no campo.

Eu queria tanto isso para mim, e mesmo que eu me sentisse suficientemente bem e estava fazendo tudo o que meus treinadores me pediram, eu nem estava conseguindo uma oportunidade. E a última coisa que eu queria fazer era despejar toda a minha negatividade em Shaquill e derrubá-lo. Então, me assegurei de estar sempre positivo ao seu redor. Nunca falei com ele sobre como me senti nos primeiros três anos.

O pior dos piores foi provavelmente o verão antes da minha terceira temporada, quando os treinadores tinham a maioria dos rapazes ficando em Orlando para se exercitar, enquanto outras pessoas foram para o verão.

Eles mantiveram Shaquill na UCF para o verão.

Eles me enviaram para casa, em São Petersburgo.

Era a primeira vez que Shaquill e eu ficávamos separados.

Passei esse verão trabalhando com meu pai e Andre. Meu pai tem um caminhão de reboque, então eu acordava às 7 da manhã e ia trabalhar com ele, rebocando carros. Gostava de sair por volta das 6 da tarde e ir para a minha antiga escola do ensino médio para trabalhar com a equipe de trilha, então eu me encontrava com Andre por volta das 8 e trabalhava com ele até a meia-noite, limpando escritórios na concessionária local da Chevy.

Eu fiz isso todos os dias, de segunda a sábado, durante todo o verão.

Lembro-me de uma vez, quando eu trabalhava com meu pai, rebocamos o carro de um homem, e quando o deixamos, o cara tirou uma nota de cinco dólares do bolso e foi me entregar. Mas, antes disso, ele puxou de volta e a rasgou ao meio. Ele me deu uma metade e colocou a outra metade no bolso. Não sabia se deveria rir ou se eu tinha que ter ficado bravo. Eu simplesmente olhei para o cara.

Ele olhou para mim e disse: “Continue trabalhando, filho. Porque nada vem fácil”.

Eu ainda tenho esse pedaço de cinco dólares rasgado em algum lugar na casa dos meus pais, porque eu nunca quero esquecer o que esse cara me disse naquele dia – era o mesmo que meu pai costumava dizer quando era criança.

Nada vem fácil.

E, olhando para trás, na época, eu acho que precisava me lembrar disso. Porque se sentar no meu dormitório sozinho e assistir jogos no meu laptop era um ponto baixo, arrumar carros e limpar latas de lixo naqueles compartimentos de escritório à noite era ainda pior.

Honestamente, esse verão foi o primeiro e único momento desde que eu era um pequeno filho saltando obstáculos e tentando pegar foguetes do meu pai no quintal que pensei em abandonar o futebol americano.

Aqueles foram tempos muito escuros para mim.

Então, depois de voltar para a UCF para a minha terceira temporada e estávamos 0-12, o treinador Frost entrou e me trouxe de volta à luz.

Você provavelmente sabe o que aconteceu em seguida: durante as próximas duas temporadas, o treinador Frost transformou um programa 0-12 em um time de campeonato nacional invicto. (Isso mesmo, eu disse equipe de campeonato nacional. E ninguém pode me convencer do contrário)

Ao longo do caminho, ele me deu a oportunidade que eu esperava desde que entrei pela primeira vez na UCF.

E aproveitei isso.

Eu acho que o que fiz no campo, especialmente nesta temporada passada, fala por si mesmo. Então eu não sinto que preciso entrar em tudo isso. Vou deixar a minha fita falar.

Além disso, não me defino pelos meus sucessos.

Eu me defino pela adversidade, e como eu perseverei.

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Eu não durmo mais com minha jersey na noite anterior aos jogos. Mas eu dormi na academia de futebol basicamente toda a pré-temporada nesse último ano. Saí e comprei um colchão e um edredom, e então fui ao Publix e abasteci as bebidas, lanches e essas coisas. Tinha tudo o que eu precisava. E em vez de ir e voltar para o meu dormitório durante o camp, dormia na academia de futebol, levantava pesos e assistia aos filmes durante a noite.

Eu sabia que seria o meu último camp na UCF, então eu queria ter a experiência completa.

Eu apenas acho que, à medida que os rapazes progridem através de suas carreiras de futebol, eles começam a pensar sobre o jogo de forma diferente. Eles começam a pensar em conseguir sua bolsa na faculdade, ou chegar à NFL para que eles possam cuidar de suas famílias. Eles começam a olhar para o jogo como um trabalho – e eles devem, porque para se destacar nos níveis mais altos, você tem que levar o futebol americano a sério. É uma grande responsabilidade.

Mas acho que alguns caras esquecem porque eles começaram a jogar quando eram crianças – como amavam tanto o jogo que até dormiam com a jersey na noite anterior à partida.

Comecei a jogar futebol americano porque amava. E sim, como qualquer outra pessoa, minha visão do jogo mudou definitivamente à medida que eu envelheci.

Mas não se transformou em trabalho ou obrigação.

Se tornou um propósito.

Eu tive pessoas que duvidaram de mim toda a minha vida, e eu sei que há muitas crianças lá fora, com várias deformidades ou defeitos congênitos ou qualquer tipo de rótulos que as pessoas desejam colocar, e eles também sentirão isso. E estou convencido de que Deus me colocou nesta terra por um motivo, e essa razão é mostrar às pessoas que não importa o que qualquer outra pessoa diz, porque as pessoas vão duvidar de você, independentemente disso. Isso é um fato da vida para todos, mas especialmente para aqueles com defeitos congênitos ou outras deficiências.

O importante é que você não duvide de si mesmo.

Eu me sinto como todos os meninos e meninas lá fora com defeitos congênitos… nós temos nossa própria ‘nação’, e nós temos que nos apoiar, porque todo mundo merece mostrar o que pode fazer sem que ninguém lhes diga que não pode.

Eu sei que há alguns olheiros e treinadores – e até alguns de vocês, dirigentes – que provavelmente estão duvidando de mim, e tudo bem. Eu entendo. Eu só tenho uma mão, e por isso, sempre houve pessoas que questionaram se eu poderia ou não jogar esse jogo.

Se você é um desses General managers que acredita que posso jogar na NFL, eu só quero agradecer. Eu admiro você, e estou entusiasmado com a oportunidade de jogar por você e provar que você está certo.

E se você é daqueles que estão duvidando de mim… bem, eu também quero agradecer a você. Porque você é o que me mantém motivado todos os dias para trabalhar duro e jogar ainda mais.

Quando eu tinha oito anos, joguei porque amava o jogo. Eu ainda amo. Mas, agora, eu também jogo porque acredito que é meu propósito. Eu sei que não será fácil. Nada vem fácil. Mas cumprirei esse propósito. Eu não tenho dúvidas.

Atenciosamente,

Shaquem Griffin
Universidade da Flórida Central
Campeões nacionais de 2017 (13-0)

Ronaldo Barreto

Jornalista formado desde 2016, mas já trabalhava na área desde 2010, quando comecei em uma rádio comunitária em Guarulhos. Fui repórter (estagiário) na Federação Paulista de Futebol (FPF) e no site do jornal Diário de S. Paulo. Neste último, fui efetivado em 2016 e passei a ser o responsável por todo o conteúdo do portal do veículo em 2017, além das redes sociais. Com o intuito de fazer o futebol americano crescer ainda mais no Brasil, criei a página NFL à Brasileira, que se expandiu para este site de notícias sobre o esporte. Além da escrita, sou muito ligado à fotografia, principalmente de esportes.

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