Ryan Shazier: “Bro”

Ryan Shazier teve uma grave lesão durante a temporada. Mais do que uma contusão normal, o linebacker do Pittsburgh Steelers poderia perder o movimento das pernas definitivamente, após dar um tackle. Hoje, não se sabe muito sobre o futuro do atleta, mas, ao que tudo indica, ele conseguiu se recuperar bem e tem mostrado evolução no tratamento.

Enfim, só para lembrar o porquê dele ter se tornado um jogador mais popular e querido na NFL. Na verdade, esse texto escrito por ele no The Players Tribune não tem a ver com o fato. Shazier conta sobre a alopecia, doença, muitas vezes genética, que acarreta na perda de cabelos pelo corpo. O defensor fala de como foi encarar isso logo na infância e ter que superar as provocações das outras crianças.

Em seu título, Ryan coloca ‘Bruh’, uma abreviação para ‘brother’ (irmão), uma expressão de um jeito de falar ‘bro’. Optei por ‘bro’ neste título porque acredito que seja uma maneira mais conhecida aqui no Brasil. Por que ele usa isso no título? Aí, vocês só vão descobrir lendo.

BRUH

Estou no elevador com James Harrison, Joey Porter e Arthur Moats no dia após nosso jogo contra o Cowboys, na última temporada (2016). Lembro muito bem, pois nós estávamos putos porque Ezekiel Elliot tinha corrido para 114 jardas contra nós. Então, James e eu estávamos indo discutir o que tínhamos feito de certo e errado. James está andando quando, de repente, ele para. Apenas congela na metade da frase e olha para minha cabeça.

Olho para ele, tipo ‘o que foi?’

Ele diz: Bro…

Sabe quando a pessoa fica com os olhos arregalados e não diz nada? É o pior.

“Que foi?! Bro, o quê?”

Ele diz: “Bro… acho que seu cabelo está crescendo”

Isso me deixou paralisado. Na semana anterior, me olhei no espelho e percebi algo estranho. Minha cabeça não parecia tão careca quanto de costume. Passei a mão sobre meu couro cabeludo algumas vezes e eu podia jurar que senti alguns pontos mais ásperos. Mas, quero dizer… isso é impossível. Eu tenho alopecia desde quando tinha 5 anos de idade. Não posso ter cabelo, ponto.

Agora estou aqui com James e eles está falando que viu cabelo em mim. Não sei se ele está falando sério ou somente tentando tirar uma comigo.

Então eu disse: ‘Qual é, cara? Não brinca com isso. Tá falando sério?’

Agora Joey e Moats estão olhando para mim, porque eles ouviram o que James disse.

Então Joey disse: ‘Não, cara… eu acho que ele está certo. Eu estou vendo’

Esfrequei minha cabeça e estava ainda mais áspero do que na semana passada. Eu tinha cabelo. Não só pequenos pelos. Estou falando CABELO. Pela primeira vez em 19 anos.

Enquanto a temporada seguia, eu queria manter minha rotina. Estava tão acostumado a não ter cabelo que eu o raspei de novo. Mas, depois que a temporada terminou, decidi deixá-lo crescer. Eu sabia que minha cabeça não ficaria cheia de cabelo ou alguma coisa assim. Era desigual e fino, mas, para mim, ainda parecia um milagre.

Infelizmente, é 2017. Sabemos em qual mundo vivemos. Para algumas pessoas, era a desculpa perfeira para me atacar com ódio nas redes sociais.

Eu sabia que aconteceria, e entendi tudo. Pesquise ‘shazier hair’ no Twitter e você verá a ignorância que as pessoas com alopecia lidam todos os dias. Algumas coisas eram ruins, outras eram muito engraçadas. Pelo menos para mim.

Depois de fazer uma pequena participação no estúdio da NFL Network, alguém postou um print do vídeo e escreveu na legenda: ‘Quando o pirulito cai em cima do tapete e você o pega de novo’.

Cara, eu chorei de rir. Isso foi criativo. Eu respeitei. Mas esse sou eu. Lido com isso há 19 anos.

Minha noiva, porém… foi outra história. Ela ia cavando os comentários para ver o que as pessoas estavam dizendo. Ela não entendia por que as pessoas eram tão cruéis sem razão alguma e por que eu não queria responder a eles.

Ryan e a esposa (Instagram)

Um dia, ela leu uma coisa que a fez chorar. Aquilo me levou à minha infância.

Eu tentei fazer ela rir para se acalmar. Falei: ‘Baby, você sabe que eu tinha um afro, né?’

Eu realmente tive. Fui um bebê com um afro cheio e vasto. Mas, quando eu tinha uns cinco anos, meu cabelo começou a cair. Não só na minha cabeça. Eu era jovem, então, a única coisa que eu consigo lembrar é que meu travesseiro estava cheio de cílios de manhã. Minha mãe passava a mão na minha cabeça e ela ficava cheia de cachos.

Os primeiros médicos disseram que não sabiam o que estava acontecendo. Eu era muito jovem para me preocupar, mas, obviamente, meus pais estavam muito assustados e preocupados com algo mais sério. Até eu ir a um dermatologista que finalmente me diagnosticou com alopecia.

O doutor explicou para minha mãe que meu sistema imunológico estava atacando meus folículos capilares, forçando o meu cabelo a cair. Isso é fácil para um médico explicar a um adulto, mas não é tão fácil fazer isso com as crianças na escola. Elas me perguntavam se eu estava morrendo ou se estava com câncer. Não importava quantas vezes eu dizia isso, eles continuavam me provocando.

Foi difícil para mim, no começo. Eu mal entendia o que estava acontecendo com meu corpo e as crianças me tratavam como se eu tivesse algum tipo de praga. Algumas vezes eu fiquei bravo e queria revidar. Em outras, só queria chorar.

Conheci muitas crianças (e adultos) com alopecia que ainda lutam com a questão da autoestima. Eu entendo isso, porque, deixa eu te falar: crianças podem ser más.

Quando tinha nove anos, mudamos de Ft. Lauderdale para Waco, no Texas, para meu pai se tornar pastor. Isso significava que eu seria uma criança nova em outra escola. Um alvo fácil.

Ouvi todo insulto que você possa imaginar…

O que me permitiu superar isso foi o quão bem os meus pais lidaram com a situação. Eles não reclamavam com os pais dessas crianças ou com meu professor por não me proteger. Isso só teria feito a coisa piorar. Eles também não me fizeram usar uma toca ou peruca. A alopecia não sairia. Eu não poderia me esconder disso, então eu tinha que aprender a conviver assim.

‘Não há nada de errado com você’, dizia minha mãe. ‘Você só não tem cabelo. A maioria das crianças tem. É isso’.

Quando voltamos para Lauderdale, três anos depois, eu estava de novo naquela situação. Nova escola. Nova criança careca. Novos insultos. Adivinha? Crianças da Flórida não são diferentes das do Texas.

Bola mágica. Cancer boy. Professor X (Esse era uma droga)

E acontecia sempre. Sabe o que eu fazia quando me inventavam algum novo insulto? Eu apenas ria.

É assim que se ganha do bullying. É assim que você os deixa irritados.

Ria. Sorria. Não ligue para o que eles pensam.

Eu ainda tentava passar por alguns tratamentos para fazer meu cabelo parar de cair. Um deles era um creme de esteróides que eu esfregava na minha cabeça e sobrancelhas. Infelizmente, com essas coisas, meu cabelo só cresceu de volta aos remendos. Parecia ainda pior.

A outra coisa que tentei quando estava no ensino médio foi cortisona. As doses deveriam estimular o crescimento do cabelo, suprimindo o sistema imunológico em torno da minha cabeça e sobrancelhas, já que isso causava a perda de cabelo. E funcionou … um pouco. Consegui alguns tufos na minha cabeça e sobrancelhas, mas, droga, não funcionou muito bem.

A cada duas semanas, eu aparecia no consultório e ele entrava com uma bandeja cheia de agulhas. Não eram agulhas finas. O médico inclinava minha cabeça de um jeito e, em seguida, injetava a agulha no meu crânio 15 vezes.

Sério, 15 vezes. De cada lado. A cada duas semanas. Por todo o ensino médio.

Esse é o tipo de dor que crianças com alopecia sentem. Aí vão para a escola e suportam outro tipo de dor.

Quando fui para Ohio State, minha mãe me perguntou se eu queria continuar o tratamento. Até então, eu estava em paz com isso, confortável com quem eu era. Meus companheiros em Ohio State não se importavam. Meus treinadores não se importavam. Resolvi abraçar a calvície e todos os comentários que vinham com ela. Foi assim desde então.

Eu era careca enquanto buscava meus sonhos, e eu estava careca enquanto os vivia. Quem se importa?

Essa é a minha mensagem para as pessoas que conheço com a alopecia que realmente lutam com ela e que não vão a lugar algum sem um chapéu. Eu sei o quão difícil é. Mas eu vejo isso dessa maneira – se seu cabelo crescer magicamente amanhã, não vai mudar quem você é como pessoa, ou o que você é capaz ou quem o ama.

Fui a criança careca na escola.

Fui o jovem careca em Ohio State.

Fui o cara careca na NFL.

Então, eu estava parado no elevador com James Harrison no último Ação de Graças (2016).

‘…bro’

Nunca me esquecerei daquele olhar no seu rosto.

Eu tinha cabelo novamente. Não fazia ideia do porquê. Isso não era para acontecer. Parei com as doses ou os cremes há anos. Meu cabelo apenas decidiu que queria crescer por conta própria, eu acho.

E sabe o que mais? Não mudou nada. Fiquei empolgado no dia, mas acordei na manhã seguinte e eu ainda era eu. Fiquei tipo…

Aquele Ezekiel Elliott… caramba.

Ronaldo Barreto

Jornalista formado desde 2016, mas já trabalhava na área desde 2010, quando comecei em uma rádio comunitária em Guarulhos. Fui repórter (estagiário) na Federação Paulista de Futebol (FPF) e no site do jornal Diário de S. Paulo. Neste último, fui efetivado em 2016 e passei a ser o responsável por todo o conteúdo do portal do veículo em 2017, além das redes sociais. Com o intuito de fazer o futebol americano crescer ainda mais no Brasil, criei a página NFL à Brasileira, que se expandiu para este site de notícias sobre o esporte. Além da escrita, sou muito ligado à fotografia, principalmente de esportes.

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