Adam Thielen: Criado em Minnesota

Chegar à NFL já é a conquista. Não há satisfação maior para aqueles jovens garotos que sempre sonharam em jogar futebol americano profissionalmente e atingem o ápice da competitividade da modalidade. Só que para Adam Thielen, o prazer do sonho realizado é dobrado: ele joga no time que sempre torceu, o Minnesota Vikings.

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Neste relato – que você lê a tradução logo abaixo -, escrito ao The Players Tribune, o recebedor fala sobre as dúvidas que teve antes de decidir se arriscar no esporte, sobre a família e, claro, sobre o que sentiu ao vestir a camisa do tão amado time pela primeira vez.

Em 2017, até a semana 8, o jogador é o segundo recebedor em jardas (627), perdendo apenas para Antonio Brown (835), do Pittsburgh Steelers.

CRIADO EM MINNESOTA

Como a maioria dos jovens de 23 anos saindo da faculdade, eu tinha uma entrevista de emprego.

Era maio de 2013 e meu ano sênior (último) de futebol americano em Minnesota State-Mankato havia terminado há alguns meses. Eu ainda não tinha 100% de certeza do que faria após a faculdade, mas eu conhecia um cara que conhecia um cara em um lugar chamado Patterson Dental, e ele me falou bem de lá.

O trabalho era… bem, basicamente, eu venderia equipamentos dentários. Na verdade, era mais um estágio, mas era uma oportunidade bastante decente em uma empresa muito boa. Coloquei um terno e gravata e fui para a entrevista. Foi uma boa entrevista. Mas eu lembro que, em um ponto, o entrevistador me perguntou uma dessas perguntas clichê.

“Se você pudesse ter qualquer trabalho no mundo, qual seria?”

Ele obviamente saberia que estava mentindo se eu dissesse: “Vender equipamentos odontológicos!” Então eu disse a ele a verdade.

“Jogar na NFL”.

A cabeça do cara levantou, e ele me olhou com… aquele olhar. Não sei como descrever, mas eu sabia qual era o olhar porque já tinha visto – apenas alguns meses antes, na verdade. Poucos dias depois do meu último jogo de faculdade, cheguei na casa da minha namorada, Caitlin – agora minha esposa – e disse: “Sabe… Eu quero jogar na NFL, então vou dar uma chance e ver o que acontece “.

E ela me deu aquele mesmo olhar.

Tipo, ‘sério?’

Então ela disse: “Você tem certeza de que não quer conseguir um emprego normal?”

Ela não disse de uma forma negativa, foi mais como… vamos ser realistas. Ela estava certa. Ela sempre me equilibrou – sem me deixar muito alto ou muito baixo – e esse foi um exemplo perfeito disso. Chegar à NFL era bastante improvável. Eu era o recebedor de uma faculdade pequena na Divisão II (da NCAA). Não estava no radar dos times da NFL. Se eu fosse tentar isso, teria que ter um plano B. Decidi que treinaria, mas, ao mesmo tempo, ficaria de olho em outros trabalhos, caso não desse certo.

O Patterson Dental era o plano B.

Mais tarde naquela semana, quando iria ao ‘rookie camp’ (acampamento de treinos para calouros) do Vikings, eu descobriria se eu precisaria ou não da segunda opção.

Crescendo em Detroit Lakes, Minnesota, eu era um grande fã dos Vikings. Quando jogava no meu quintal, fingia que era Cris Carter ou Randy Moss. Ficava assistindo aqueles caras jogando, e essa equipe de 98 do Vikings fez eu me apaixonar pelo futebol americano e querer ser um recebedor.

Mas, olhando para trás agora, percebo que quando os assistia, nunca pensei sobre o que tinha levado esses caras a esse nível – ou o que seria necessário para eu chegar lá.

O que aprendi é que cada um tem a sua jornada.

Não fui recurtado no ensino médio. Na verdade, pensei que basquete seria meu esporte na faculdade. Então, depois que me formei, estava planejando ir a uma escola da Divisão III para jogar basquete. E onde quer que eu fosse, eu também tentaria jogar futebol.

Mas, cerca de duas semanas antes do início do acampamento de futebol no verão, recebi uma ligação do técnico da Minnesota State-Mankato.

Não foi uma longa conversa. Basicamente, ele disse: “Temos 500 dólares por você. Venha para Mankato. “

Eu nem sabia que havia uma bolsa de estudos de $ 500. E isso não seria suficiente para cobrir meus livros. Mas era melhor do que o que estavam me oferecendo em qualquer outro lugar, que era… nada. Então eu nem hesitei.

“Sim”, eu disse. “Estou dentro”.

Não fui para Mankato pensando que estava a um passo da NFL. Eu só queria continuar jogando futebol americano. Que foi o tipo de pensamento que tive quando – depois de uma boa carreira em Mankato – eu decidi dar uma chance à NFL. No fundo, sempre sonhei em jogar na NFL. Mas, quando eu decidi realmente ir, era porque queria apenas continuar jogando. Eu não queria que aquilo acabasse.

Comecei a treinar com Tommy, um dos meus colegas da faculdade, e pesquisei todas as formas possíveis para me colocar na frente dos olheiros da NFL. Mankato não tinha um ‘Pro Day’, e não fui convidado para a NFL. Mas o que descobri foi que existe um circuito de pequenos ‘Combines’ em todo o país para os caras que não são convidados para o grande Combine da NFL em Indianápolis – caras de escolas menores que podem ser desconhecidos.

Sabe, caras como eu.

Era mesmo um grupo misto. Você teria um cara de uma escola da Divisão I fazendo exercícios ao lado de um cara gordo de meia idade que parecia que ele nunca jogava futebol na vida dele. Era meio louco.

Além disso, não há olheiros nesses Combines. Eu pensei que haveria, mas acabou por ser apenas os poucos caras que estavam trabalhando no evento. Você faz os testes e seus resultados são enviados para todas as 32 equipes da NFL. Se eles gostam do que veem, você pode ser convidado para o Combine Super Regional, onde ‘scouts’ de cada equipe aparecem para avaliar você pessoalmente.

Ah, e você também deve arcar com seus custos, também.

Naquele ano, custou US$ 275 para participar do Combine regional. Mais o dinheiro para gás, comida e quarto de hotel, o que é muito para um desempregado de 23 anos que acabou de sair da faculdade.

Mas eu disse a mim mesmo que eu iria fazer tudo o que estava ao meu alcance para chegar à NFL, então pulei em um carro com Tommy e um dos nossos amigos e dirigimos para Chicago.

Nos testes, corri o tiro de 40 jardas, fiz alguns ‘drills’ (treinos específicos de posição) e levantei alguns pesos. Quando acabou, recebi um login para um site onde meus resultados seriam publicados – não me disseram quando ia acontecer, só que seria nos próximos dois dias. Então, meus amigos e eu deixamos o lugar, fomos e comemos uma pizza – minha primeira refeição ‘porcaria’ desde que comecei a treinar sério para a NFL – e voltei para o nosso quarto de hotel. Fiquei sentado na mesa a noite inteira com meu laptop, clicando no botão de atualização todos os minutos e esperando que meus resultados aparecessem.

O meu processo de pensamento foi: tudo se resume ao meu desemoenho no 40. Eu sabia que tinha ótimas mãos. Eu sabia que poderia executar boas rotas. Eu pensei que eu tinha muitas ferramentas que atrairiam a atenção dos times se eles me vissem pessoalmente.

Mas eu também sabia que, para os scouts da NFL, o a corrida de 40 jardas é o que mais importa. Porque você não pode ensinar a velocidade. E se eu pudesse correr entre 4,4s – 4,5s, poderia ser suficiente, na teoria, para chegar ao próximo estágio, e talvez até em um rookie camp.

Ter o seu destino, o sonho de infância, a um clique do botão de atualização me deixou nervoso – fique esperando a noite toda. Meus amigos estavam saindo, assistindo TV ou o que fosse, mas eu estava colado na tela do meu computador. A cada poucos minutos, clique.

E cada vez, nada.

Até que…

Do nada, toda a tela foi preenchida. Sentei na cadeira e meus amigos levantaram-se e se debruçaram atrás de mim, procurando pelo meu tempo nas 40… e lá estava:

4.45s.

Saí daquela cadeira de mesa pela primeira vez a noite toda. Começamos a gritar e nos cumprimentar, e então eu imediatamente liguei para Caitlin e contei a notícia.

Ela estava tão orgulhosa.

4,45s era suficiente para me chamarem para o Combine Super Regional (eu também tive que pagar esses voos), onde eu fui muito bem, e alguns olheiros me pediram vídeos de jogos meus.

O Draft chegou, e eu não fui escolhido. Mas eu meio que esperava isso.

O que eu não esperava era não ser contratado como undrafted free agent (jogador que não foi draftado e fica livre no mercado).

Eu pensei que tinha feito o suficiente para que, pelo menos, alguma equipe quisesse ver mais de mim.

Então, fui convidado para dois camps de calouros. Um era o do Carolina Panthers. O outro, do Minnesota Vikings.

A minha criança interior ficou maluco. OS VIKINGS!

Mas o desconhecido recebedor de Mankato dentro de mim sabia que era só um convite. Nada garantido. Eu continuava precisando trabalhar duro, e seguia pensando em um plano B.

O que me levou ao Patterson Dental.

É engraçado… no fim da entrevista, o cara disse que poderia me oferecer o emprego, e eu falei: “Ei, eu realmente gostaria de trabalhar para você, mas eu tenho um tryout neste fim de semana. Com o Vikings. Se correr tudo bem e surgir a oportunidade, terei que aceitar”.

Ele ficou surpreso. Trabalho dos sonhos, certo?

Mas ele foi muito solidário.

Eu disse que entraria em contato para contar-lhe como foi.

Uma coisa estranha no camp de novatos é que não é necessariamente um ‘tryout’. Há no time quase todos os jogadores draftados e todos os undrafted free agents, mas não há jogadores suficientes para ter um treino completo. Então, eles convidam mais 30 ou 40 caras aleatórios.

Eu era um desses outros caras.

Mas é um tryout no sentido de que você está no mesmo campo que os caras recrutados. Você está competindo contra os caras que estão lutando para fazer a equipe – alguns que certamente vão compor o elenco – e os treinadores estão assistindo. Então, se você fizer o suficiente para se destacar, você pode criar uma oportunidade para você.

Aprendi todo o livro de jogadas – o mesmo que os veteranos demoram uma temporada toda para aprender – em alguns dias porque eu sabia que precisaria disso para conseguir uma chance de me destacar. Não tive tempo de pensar.

O acampamento consistia em cinco treinos ao longo de três dias. No primeiro dia, eu estava jogando com o terceiro grupo, que era basicamente o grupo mais baixo. Os caras que foram recrutados treinaram entre eles, os agentes livres não contratados com os dois, e o três era composto pelos caras que não tinham uma chance real de estar entre os 90 da primeira lista do elenco.

No final do camp, eu já estava correndo com o dois e aparecendo algumas vezes entre os um. Eu estava tendo oportunidades de enfrentar jogadores que se tornariam atletas legítimos da NFL, e eu estava muito bem.

Mas não tinha muitas esperanças, porque os Vikings já tinham seu set de 90 jogadores. Então, apesar de ter pensado ter feito o suficiente para me destacar, não pensei que havia espaço para mim. Depois do terceiro dia do acampamento, guardei minhas coisas e me preparei para ir para casa.

Um dos treinadores me chamou para o seu escrtitório. O técnico disse que eles gostaram do que viram, mas, como eu esperava, o elenco estava fechado.

Mas então ele disse que queria assinar um contrato comigo de qualquer jeito.

Eles teriam que cortar algum outro recebedor – alguém que eles já tivessem até pagado o bônus – para me dar um espaço.

Esse foi um dos momentos mais legais para mim porque eu senti que… não sei . Eu apenas sentia que todo aquele trabalho duro – todo o treino, a viagem para Chicago, a leitura do playbook – foi recompensado. Tudo significava algo. Isso me permitiu mostrar ir bem e fez eles pensarem em cortar alguém que já tinham se comprometido financeiramente, apenas para se certificar de que eles me teriam.

Isso fez eu me sentir muito bem.

Liguei para Caitlin, dei a notícia e fui festejar com a minha família.

Então liguei para o cara do Patterson Dental e contei-lhe o quanto eu apreciei seu tempo e consideração.

Mas eu não precisaria desse estágio.

Adam Thielen em seu primeiro jogo de pré-temporada

Quando eu estava no colégio, no início das temporadas, nós colocávamos uma foto em nossos armários. Uma foto do Metrodome (estádio usado pelo Vikings de 1982 até 2013; depois, foi demolido e deu lulgar ao US Bank Stadium). Era lá que a decisão do campeonato estadual era disputada todos os anos. Então, era um objetivo.

Chegue ao Metrodome.

Eu amava o Metrodome. Fui a alguns jogos quando era jovem, e era a experiência mais legal de todas. Era tão barulhento. A atmosfera era incrível. A torcida estava sempre maluca. Era um lugar especial.

Nunca tive a oportunidade de disputar um título lá. Mas em 2013, como um membro do practice squad do Vikings, eu tive a chance de jogar nesse gramado, com um uniforme do Vikings, durante a pré-temporada.

Não foi muito como eu imaginava porque era um jogo de pré-temporada, então a atmosfera não era intensa como na temporada regular. Mas, para mim, era um sonho se tornando realidade. Correr naquele gramado foi um dos momentos que me fez pensar ‘estou aqui, eu consegui’.

Venho sendo afortunado o bastante para vivenciar esses momentos desde quando decidi correr atrás da NFL. Jogar no Metrodome era um desses momentos. Fazer parte do elenco de calouros era outro. E até mesmo ser cortado após meu primeiro training camp, em 2013, eu ainda senti como se eu tivesse feito isso porque os Vikings me contrataram para o practice squad. Eu era parte do time. Eu posso usar o uniforme do Vikings para trabalhar todos os dias – eu não sei você, mas para mim isso é muito melhor do que terno e gravata.

Mas eu acho que o momento em que eu realmente consegui – quando eu senti que não estava mais tentanto provar para mim mesmo, mas já tinha provado – foi na última temporada (2016), na semana 5, em casa contra o Texans.

Qualquer um que me conhece ou que acompanha minha carreira sabe de qual jogo estou falando. Era uma grande oportunidade para mim porque Stefon Diggs estava fora por uma contusão, e eu sabia que meu time precisava de mim.

Eu transformei isso no meu grande jogo. Foi minha primeira partida com mais de 100 jardas e eu marquei o meu segundo touchdown da carreira.

Eu lembro que meu celular bombou depois do jogo, e eu sentia o amor vindo da minha família e de todas as pessoas que me apoiaram durante a minha jornada, especialmente as pessoas da faculdade e da comunidade onde cresci. Minnesota é um lugar de gente trabalhadora. Nós não ligamos para os holofotes. Apenas gostamos de trabalhar duro.

E jogar duro, também.

Eu penso que essa mentalidade de Minnesota me serviu muito bem. As chances quase sempre eram contra mim, mas eu mantive minha cabeça baixa, trabalhei duro e acreditei que tudo se encaixaria.

É por isso que o jogo contra o Texans é tão especial para mim. Foi a recompensa por todos os anos de trabalho duro e crença em mim mesmo. Eu provei para mim mesmo e para o mundo que era capaz de competir no mais alto nível contra os melhores defensores da NFL. Eu tinha uma linda esposa e família e comunidade me incentivando. Eu lembro de estar muito grato por tudo o que estava sentindo e pelas bençãos da minha vida.

Dois dias depois, mais uma benção.

Meu filho, Asher.

Quando Caitlin deu à luz, eu ainda estava recebendo ligações e respondendo mensagens por causa do jogo contra o Texans. Aconteceu tudo muito rápido. Ainda bem que a semana seguinte era de folga, então eu consegui ficar com ela e nosso novo filho.

Adam com a esposa e o filho

Foi um momento muito especial para mim, entre o que aconteceu no campo e em casa. Eu estava cavando meu lugar no ataque do Vikings e minha família estava crescendo. Minha vida estava acontecendo e era um sentimento maravilhoso, como se um círculo estivesse sendo completado.

Sinto que ainda está, sinceramente. Faz um ano desde o jogo contra o Texans e o nascimento do Asher, e todos os dias eu sinto que estou escrevendo um novo caítulo da minhas história e vivendo outra parte do meu sonho de infância.

Isso me pega toda vez em que eu chego no vestiário nos dias de jogo e vejo a camisa do Vikings pendurada no meu armário com meu nome nas costas. Assim, eu cresci vendo esse time, mas nunca vi eles ganharem um Super Bowl. Testemunhei todas as decepções que um torcedor passou. O chute de 98 (Nota: na final da NFC de 1998, os Vikings, que tinha uma campanha 16-1 até ali, perderam para o Falcons, na prorrogação, por causa do chute errado de Gary Anderson – chutador que não tinha perdido um único field goal na temporada). O Campeonato de 2000 da NFC (Nota: nessa ocasião, o Vikings foi atropelado pelo NY Giants, na final da NFC). A interceptação de Brett Favre contra o New Orleans Saints (Nota: final da NFC de 2009). Tivemos tantos grandes jogadores e times ao longo da história mas eu nunca vi o Vikings passar essa barreira e ser campeão.

Agora, eu tenho que vestir o roxo e dourado e ajudar meus companheiros de equipe a chegar nesse objetivo.

Para o garoto universitário que foi subestimado e segue querendo provar que pode se manter nessa liga, isso é só uma parte do caminho. É o próximo passo. O próximos objetivo.

Mas para a pequena criança dentro de mim, que cresceu assistindo esse time?

É a coisa mais legal do mundo.

 

Ronaldo Barreto

Jornalista formado desde 2016, mas já trabalhava na área desde 2010, quando comecei em uma rádio comunitária em Guarulhos. Fui repórter (estagiário) na Federação Paulista de Futebol (FPF) e no site do jornal Diário de S. Paulo. Neste último, fui efetivado em 2016 e passei a ser o responsável por todo o conteúdo do portal do veículo em 2017, além das redes sociais. Com o intuito de fazer o futebol americano crescer ainda mais no Brasil, criei a página NFL à Brasileira, que se expandiu para este site de notícias sobre o esporte. Além da escrita, sou muito ligado à fotografia, principalmente de esportes.

Um comentário em “Adam Thielen: Criado em Minnesota

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