Matt Ryan: ‘A ressaca’

Neste texto, publicado no The Players’ Tribune, Matt Ryan, quarterback do Atlanta Falcons, desabafa sobre o que sentiu após a derrota no Super Bowl LI, em fevereiro deste ano. Não foi um simples revés. Foi a maior virada da história da final da NFL. Como eles deixaram uma vantagem de 28 a 3 escapar? Como?

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Ryan não sabe explicar, também. Nem o time que venceu tem um esclarecimento preciso. A única explanação plausível deve ser… é um esporte, pode acontecer qualquer coisa. No entanto, o líder do ataque dos Falcões diz que, acima de tudo, acredita no seu time. Confira:

A RESSACA

A pena é o pior, né?

Quando as pessoas sentem pena por você – cara, isso me deixa maluco. Eles perguntam como você está, você diz que está bem, e depois eles te dão aquela olhada tipo ‘É você mesmo?’

Eu tive muito disso durante essa intertemporada, e eu entendo o porquê. Tínhamos o Super Bowl ali na nossa frente, era só pegar, e deixamos escapar. Eu não vou mentir para você e dizer que era só um jogo. Não era. Era o maior jogo de nossas vidas.

E nós desperdiçamos.

E, honestamente? Foi uma merda. Ainda é. E, provavelmente, sempre será.

Mas, agora, a questão que encaramos é: como vocês vão dar a volta por cima?

E nossa resposta: É só… agir.

Porque você precisa. Porque não há nada que você possa fazer para mudar o que aconteceu. Porque – me desculpe pelos clichés, mas – tudo o que você pode fazer é aprender com isso, usar como motivação e seguir em frente. Então é o que fizemos, coletivamente, como equipe e como franquia.

Nós seguimos em frente.

Eu sei que você está lendo isso e pensando ‘Sério, mesmo?’

Tipo, ‘não é exatamente isso que você deveria dizer?’

Bem… sim, é. E tenho certeza de que muitas pessoas dirão que tudo bem, quando tudo, definitivamente, não está bem. Fiz isso algumas vezes pra mim mesmo nesta offseason.

Mas não estou fingindo quando digo que sim, seguimos em frente.

A transição que fizemos é muito real.

Depois do Super Bowl, todos no time seguiram para diferentes caminhos por algumas semanas – de férias, visitando a família ou apenas indo para casa e desaparecendo por uns instantes até a volta dos treinamentos. Eu não sei para os outros caras, mas, para mim, foi alguma coisa tipo uma limpeza assistir o Super Bowl novamente – o que eu fiz algumas vezes. Assistir me trouxe um elemento de finalidade… quase uma realização, tipo, ‘Cara, isso realmente aconteceu’.

Então, é isso, não foi instantâneo. Mesmo depois do jogo, demorou algum tempo para cair a ficha da derrota – para entender o que aconteceu. E teve um período de ‘luto’, também. Fiquei apavorado por um tempo. Quando alguém queria conversar sobre o Super Bowl – e poderia ser qualquer um… família, fãs, imprensa -, ficava com aquilo na cabeça o dia todo. Não importava o que estava fazendo. Eu poderia estar fazendo compras e aquilo voltava à minha mente.

Poderia estar de pé no corredor do mercado que pensava ‘como perdemos aquele jogo?’

Esse pensamento continuou voltando.

Mas, então, talvez umas três semanas ou mais dentro da offseason, mais para o fim de fevereiro, Dan Quinn mandou alguns emails para todo o time. A maioria das coisas nós preferimos manter entre nós, você sabe… mas posso resumir para você.

Basicamente, a essência era: o que está feito está feito.

Ele nos disse que seríamos uma equipe melhor, mais forte e mais unida por causa da derrota. Mas isso não aconteceria se ele trabalhasse sozinho. Ele disse que precisava que trabalhássemos individualmente durante o período de treinos, de modo que, quando voltássemos, nosso foco seria em 2017 e, assim, estaríamos bem coletivamente. Quando voltamos, ele disse, nossos olhos precisam estar 100% à nossa frente.

Foi uma mensagem bastante simples e honesta, e eu realmente entendi. Porque eu senti que Dan estava me desafiando. Como se ele estivesse desafiando todos nós. E, como líder nesta equipe, senti imediatamente uma grande responsabilidade de colocar o Super Bowl para atrás e me concentrar no futuro.

Eu acho que é quando meu humor começou a mudar – quando recebi esses e-mails.

E eu queria saber se o resto dos caras responderia da mesma maneira.

A primeira vez que voltamos a trabalhar juntos após o Super Bowl foi em abril, alguns dias antes de começar nosso cronograma de intertemporada. Convidei todo o time para passar alguns dias em Miami, não só trabalhar, mas também para passar algum tempo um com o outro. Achei que era importante nos reagruparmos – apenas nós, jogadores – e realmente conversar sobre tudo o que passamos… e também começar a trabalhar juntos no campo para tentar criar cultura de ‘seguir em frente’.

Tenho que admitir que não sabia o que esperar lá. Eu senti como se estivesse em um bom lugar, pessoalmente, mas eu poderia entender se outros caras se sentissem diferentes. Achei que alguns deles estavam indo bem, mas também pensei que alguns ainda estivessem sentindo.

E eu fiquei impressionado com o que vi ao longo desses três dias em Miami.

Em primeiro lugar, eram cerca de 45 caras. Isso é mais que o dobro do que foram no ano anterior. E todos estavam em muito melhor forma do que eu esperava. Eu não sei se eles estavam trabalhando para esquecer a derrota ou o que, mas eles chegaram lá em forma e prontos para trabalhar. Em abril. Esse foi um sinal realmente encorajador.

O melhor sentimento estava voltando. Acho que foi aí que a chave virou para mim – quando eu pude finalmente deixar 2016 no passado e colocar todo meu foco em como me tornar um melhor jogador e ajudar o time a voltar para o Super Bowl… e, desta vez, terminar o trabalho.

Quando começamos a treinar, acho que percebemos muito rápido que ainda éramos bons nisso. Depois de semanas e semanas ouvindo das pessoas como perdemos, como éramos isso ou aquilo – coisas negativas -, era importante para nós apenas voltar a jogar futebol americano. Porque, independentemente do que qualquer outra pessoa diz ou pensa, o fato é que estamos voltando praticamente com a mesma equipe que tivemos no ano passado, e ainda estamos muito bons.

E o tempo que passamos juntos em Miami fora de campo foi vital. Depois de trabalhar durante o dia, alguns saíam para jantar ou simplesmente saíam juntos à noite. Foi quando percebemos onde a cabeça de todos estavam. Os caras que ainda estavam sentindo um pouco e precisavam conversar sobre o Super Bowl falaram sobre isso, e os caras que não o fizeram – eles apenas ouviram. E foi muito legal ver como os rapazes se conectaram, se apoiaram e se alimentaram um do outro. Era especial de assistir.

No geral, eu fiquei surpreso com o quão positivo e animado todo mundo estava e como estavam ansiosos para voltar a trabalhar – para reativar o fogo que começamos e para melhorar a cultura que construímos nos últimos anos.

O que realmente confirmou algo que eu já sabia sobre nossos caras.

Algo que eu tinha aprendido semanas antes mesmo do Super Bowl.

Era a Semana 13 e tínhamos acabado de perder para os Chiefs, em uma das piores maneiras de perder um jogo. Tivemos uma vantagem de um ponto no final do quarto. Estávamos indo para uma conversão de dois pontos e eu lancei uma interceptação que foi retornada para dois pontos…

Mas, estranhamente, foi depois desse jogo – uma derrota difícil, em casa, que nos deixou em 7-5 – que realmente começamos a acreditar em nós mesmos.

Quando voltamos a treinar na semana seguinte, tudo parecia diferente – como se os caras estivessem em um nível diferente do ponto de vista da preparação. E essa foi realmente a primeira vez que eu percebi que tínhamos um grupo de caras cascudos – caras que, independentemente do quão mal as coisas possam estar, vão responder.

Tivemos uma semana de treinos duros e depois vencemos seis jogos seguidos até o Super Bowl.

Por isso, é divertido para mim que o que nos levou a Houston foi a forma como fomos alimentados pelo nosso fracasso.

E é isso que estamos tentando fazer de novo. Não vamos deixar nossas falhas nos definir ou nos consumir.

Estamos tentando deixá-las nos alimentar.

Tenho que admitir. De vez em quando, quando estamos treinando, vejo os banners pendurados, olho para cima e vejo a bandeira do campeonato da NFC 2016, e eu penso no Super Bowl.

Mas então eu passo para a próxima jogada e o pensamento se vai. Não penso mais como pensava nas primeiras semanas após o jogo. Isso não me segue mais no mercado.

Eu acho que é assim que você percebe que mudou – quando você pode, naturalmente, simplesmente… deixar o pensamento ir.

Todas as pessoas estão falando sobre a competitividade da nossa divisão, e como nossa agenda será mais dura este ano, e como foi apenas uma boa temporada… que ainda não provamos nada. E eles dizem que as equipes que perdem o Super Bowl geralmente nem fazem os playoffs no próximo ano – “ressaca” é a palavra que as pessoas gostam de usar.

Bem, nós realmente não pensamos sobre esse tipo de coisa mais. Nós pensamos no Golden State Warriors desperdiçando uma vantagem de 3-1 para os Cavs e depois voltando melhor do que nunca na temporada seguinte, ganhando tudo. Ou em Clemson perdendo o campeonato nacional e depois voltando no outro ano para vencer o Alabama.

Você poderia jogar todas as estatísticas ou história ou o que quiser. Mas a realidade é que uma equipe pode dar a volta por cima depois de uma derrota em uma decisão. Já foi feito antes. E eu acredito que nós temos o grupo certo aqui em Atlanta para fazermos também. Na verdade, acho que temos o que é preciso para ganhar aqui por um longo tempo. Mas não podemos vencer os playoffs em setembro. Não podemos ganhar um Super Bowl na Semana 1. Estamos vivendo aqui e agora. E aqui mesmo, agora, estou orgulhoso de fazer parte desse time, com esse grupo de caras, liderado por esta equipe de treinadores e jogando para esses fãs. Porque eu sei que podemos competir com qualquer um.

Então, sim, perdemos. Poderíamos ter sido campeões. Mas não fomos.

Mas não sinta pena de nós, porque não sentimos pena de nós mesmos. Estamos bem… realmente estamos. Perder o Super Bowl sempre será uma parte da nossa história. Mas não é toda a nossa história. E eu não sei sobre o resto dos caras, mas, para mim, isso servirá como motivação para o resto da minha vida.

Não consigo prever que vamos fazer os playoffs, ou ganhar a divisão, ou voltar para o Super Bowl, ou ganhar um campeonato. Eu simplesmente não posso. Todos esses objetivos são nossos, mas sei o quão difícil é ganhar nessa liga.

No ano passado, conseguimos um passo do nosso objetivo final, que era ganhar um Super Bowl. E estamos prontos para dar o próximo passo, começando agora.

Porque a única luta que importa é a que você está.

Ronaldo Barreto

Jornalista formado desde 2016, mas já trabalhava na área desde 2010, quando comecei em uma rádio comunitária em Guarulhos. Fui repórter (estagiário) na Federação Paulista de Futebol (FPF) e no site do jornal Diário de S. Paulo. Neste último, fui efetivado em 2016 e passei a ser o responsável por todo o conteúdo do portal do veículo em 2017, além das redes sociais. Com o intuito de fazer o futebol americano crescer ainda mais no Brasil, criei a página NFL à Brasileira, que se expandiu para este site de notícias sobre o esporte. Além da escrita, sou muito ligado à fotografia, principalmente de esportes.

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