Ty Montgomery: ‘O que faz Green Bay especial’

Green Bay é uma cidade pequena, no gelado estado de Wisconsin. O município, no entanto, tem uma franquia gigante da NFL, os Packers. Ty Montgomery contou, ao The Players Tribune, como é viver nesse local, pacato e tranquilo. O corredor, que está com a equipe desde 2015, falou sobre como foi o seu início, a mudança de posição, a importância de Aaron Rodgers e deixa claro: quer morar na cidade a vida inteira.

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Ty Montgomery: ‘O que faz Green Bay especial’ (Traduzido daqui)

Aaron Rodgers pode fazer uma bola de futebol cantar.

Sério… eu ouvi.

A primeira vez que aconteceu foi durante o minicamp no meu ano calouro (2015). Eu estava saindo da faculdade e Aaron já era Aaron: campeão do Super Bowl, MVP – tudo isso. Eu corri uma rota slant e, quando plantei o pé para entrar na minha rota, eu ouvi. Foi isso … whoosh. Um assobio, como uma dessas pequenas bolas Nerf Vortex (uma bola que tem um formato parecido com um míssil; pense em uma peteca, mas com essa forma na ponta; não sei explicar melhor).

Ajustei minhas mãos o mais rápido possível e assim que o fiz, a bola estava bem em mim – bem na hora, bem no alvo, bem no passo. Sua precisão corresponde à sua força. Era diferente de qualquer bola que eu já havia pegado.

Eu também vi Aaron fazer isso com outras pessoas. Ele sempre se certifica de que pode mandar bolas para você nos primeiros passes, para ter certeza de que pode fazer isso quando lançar um passe curto, colocando algo a mais sobre você. Eu acho que é apenas o seu jeito de dar boas-vindas e te deixar saber o que ele espera de você – e você precisa estar pronto em todos os momentos. É uma daquelas pequenas coisas que ele faz para ajustar o tom.

De vez em quando, se ele lançar e você não pegar, ele ficará no backfield. Então, acho que ele faz isso para se divertir um pouco também.

Estar na outra extremidade de um desses passes é definitivamente uma experiência. Embora eu tenha feito uma transição e agora atuo mais como running back…

Na verdade, transição não é realmente a palavra certa. Quando penso em uma transição, penso em passar de uma coisa para outra – no meu caso, isso significaria que eu era um wide receiver. Mas não era. Eu não preciso ser colocado em uma caixa de corredores, confinado no espaço entre os tackles. Eu ainda posso receber passes sendo um running back, e eu ainda posso ser beneficiado por um passador como Aaron.

Então eu vejo isso mais como uma evolução… uma verdadeira utilização do meu conjunto de habilidades.

Se você me dissesse, quando fui draftado na terceira rodada, em 2015, que eu seria o running back titular do Packers dois anos depois, eu teria dito que você estava louco.

Então eu teria dito: “Mas, ei… eu aceito”.

E se eu não estiver jogando na posição que fui recrutado para jogar? Estou apenas tentando contribuir com essa equipe e agregar valor de qualquer maneira possível. Eu sabia que ser o número 1 não era muito provável quando eu entrei para o elenco de running backs. Na verdade, era um tipo de cenário do Apocalipse. Eu me juntei aos corredores, e então Eddie Lacy se machucou. Então, Don Jackson. Então, James Starks. E…

Apocalipse.

Venha cá, 88.

Voltando ao training camp do ano passado, eu estou muito longe de onde eu estava. Antes do início da temporada, não tinha certeza se faria mesmo parte da equipe.

Sério. Na verdade, eu posso me lembrar de voltar pra casa depois do treino no início do training camp e encontrar minha esposa desempacotando algumas caixas, e eu disse: “Não desfaça todas as malas ainda, não tenho certeza de quanto tempo vamos ficar aqui”.

Eu estava saindo da cirurgia no tornozelo. Perdi a temporada inteira. Eu não tinha treinado toda a primeira semana de acampamento. Além disso, tínhamos muitos recebedores talentosos. Era competitivo. Quero dizer, ainda assim, eu saía do campo todos os dias com a certeza de que tinha deixado tudo o que eu podia lá. Mas, no final do dia, sentia que estava muito atrás. Eu realmente não sabia o que aconteceria.

Não vi muita ação durante a pré-temporada ou nos primeiros jogos da temporada regular. À medida que as semanas passavam, eu ficava cada vez mais incerto sobre o meu futuro em Green Bay.

 

Então, um dia, passei por Mike McCarthy (técnico principal) no corredor. Ele me parou, disse ‘oi’… e então ele falou que tinha uma ideia.

Os treinadores haviam conversado e eles achavam que poderiam me usar de muitas maneiras diferentes no backfield. Eles estavam pensando em me colocar de running back, se eu concordasse.

Eu fiquei: “Ei, se você está pensando nisso, vamos fazer isso. Vamos mergulhar e ver como vai ser”.

Eu mantive a minha cara de “sou profissional” quando apertamos a mão e fomos por caminhos diferentes. Mas enquanto eu caminhava pelo corredor, eu estava nas nuvens. Me senti leve. Com o espírito leve. Eu sabia que seria uma grande oportunidade para mim.

E então, no treino no dia seguinte, estávamos fazendo um drill de meia linha, e o treinador me chamou para se alinhar com o backfield.

Eu percebi alguns caras olhando e meio que rindo, tipo, o que Ty está fazendo? Ele pode ficar ali atrás? Pensaram que seria alguma trick play (jogada onde os jogadores trocam de posição para enganar o adversário, uma ‘pegadinha’).

Então, quando fizeram o snap, eu peguei o handoff (quando o QB entrega a bola para o RB) e corri uma outside zone. Eu acertei o buraco. O ataque se reagrupou e voltei a aparecer no backfield. E, novamente, peguei o handoff, desta vez em uma jogada de inside zone.

Você deveria ter visto a cara dos meus companheiros de equipe. Todos estavam se olhando tipo, espere… o que? Isso é real?

Após cinco ou seis corridas, acho que os caras começaram a perceber, Uou, isso é real… e Ty não é tão ruim assim.

Muitas pessoas não sabem, mas eu cresci correndo com a bola. Eu admiro caras como Eddie George, Emmitt Smith e Walter Payton. Ser um running back na NFL sempre foi meu sonho. Era até eu ter que trocar para wide receiver durante o ensino médio. Ainda joguei como corredor em Stanford, e eu amava isso.

Quando comecei a pegar os handoffs do Aaron, meus instintos ainda estavam lá. Fazendo os cortes, acertando os buracos, acelerando ao máximo, caindo para frente após o contato… tudo isso voltou naturalmente.

A dificuldade veio quando tive que reaprender o playbook, especialmente a parte de proteção de passe. Era como se eu estivesse aprendendo uma língua nova. Era completamente novo para mim.

Acho que coloquei muita pressão em mim mesmo porque, como um running back, quando você alinha para bloquear, você é o último homem a proteger o quarterback do pass rusher (jogador de defesa que pressiona o QB). Claro, eu não queria ser o cara que errava e deixava Aaron ser sackado atrás de mim.

Foi aí que os outros running backs – e Aaron – entraram.

Se há uma coisa que aprendi com esse jogo, é que você não pode fazer nada sozinho. Futebol americano é um esporte coletivo. Comunicação é a chave e devemos ajudar os outros para ter certeza de que estamos na mesma. E nosso time incorpora isso.

Quando entrei pela primeira vez na sala dos running backs, me perguntei como seria recebido. Quero dizer, há vários snaps no jogos e, comigo chegando, significava que seria mais um para dividir o tempo em campo. Eu teria entendido se os caras tivessem ficado na defensiva e focassem apenas no grupo deles.

Mas não nossos garotos.

Eles me deram as boas-vindas.

Quando assistíamos aos filmes dos jogos na sala de vídeo, eu nunca me sentia um burro quando não sabia alguma coisa em uma jogada específica ou quando tinha alguma dúvida. Nunca tinha medo de perguntar porque todos naquela sala me deixaram cientes, desde o primeiro dia, que na sala de RBs não havia egoístas ou individualistas. Eles não disseram, necessariamente, mas eu senti isso. Eles me ajudaram e me deram conselhos construtivos.

Eu, honestamente, não sei como poderia ter feito essa troca tão bem quanto eu fiz se não fosse por esses caras – Eddie Lacy, James Starks, Don Jackson, Aaron Ripkowski, Coach Sirmans – me ajudando durante a temporada.

Aaron também era assim. E isso, provavelmente, é a melhor parte de estar no backfield: eu estava ali com ele no meio de tudo, não isolado numa ilha como um recebedor. Então, se eu tivesse dúvidas ou não soubesse o que fazer em uma determinada jogada, eu simplesmente tocava em Aaron, ele me direcionaria e então eu tentava executar o melhor das minhas habilidades. Simples assim.

Mas eu recebo muito mais do que apenas orientação de Aaron no backfield.

Eu também ganho confiança.

Aaron é muito cerebral e vê o jogo de um jeito que só ele consegue enxergar. Ele é perfeccionista e exige que os outros que estão ao seu redor se esforcem para serem também.

É por isso que, de vez em quando, ele vai mandar uns foguetes para você.

Só para te manter alerta.

E quando você acertar o tom, como Aaron, você precisa mostrar um ar de confiança em você. Isso é só uma parte de ser um líder. Você não pode hesitar. Você não pode pensar duas vezes. E eu tomei essa atitude quando me juntei a Aaron no backfield. Não sei… é difícil explicar. A confiança dele é contagiante.

É por isso que quando ele falou sobre o ‘run the table’ (nota: em 2016, o Packers começou mal a temporada e ficou com poucas chances de classificação. Rodgers afirmou que eles iriam virar a mesa e conseguiriam uma vaga nos playoffs. Conseguiram…)e tudo mais no ano passado, eu fiquei feliz. Muitos caras ficaram. Esse era apenas ele deixando claro para nós – além do resto do mundo – que ele confiava no seu time. Muitos tentaram colocar mais pressão em cima de nós depois que Aaron disse isso. Mas isso não nos incomodou porque nós colocamos ainda mais pressão em nós mesmos do que qualquer pessoa pudesse colocar.

Esse é apenas um outro exemplo do que faz esse lugar especial. É o tipo de lugar onde os corredores irão te receber bem no grupo deles, mesmo que você possa roubar algumas carregadas deles. O tipo de lugar onde os técnicos vão tentar de tudo e fazer qualquer coisa para maximizar o talento do elenco, até mudar um recebedor para running back. O tipo de lugar onde o quarterback diz para o mundo que podemos vencer e todos da equipe acreditam nele.

É apenas… Green Bay.

Isso é parte do motivo que faz ser um Green Bay Packer tão especial.

Neste ano, me sinto como um calouro novamente – o que é meio estranho porque sou um veterano na sala de corredores. É minha primeira intertemporada me preparando excluisivamente para jogar de running back. Eu até ganhei uns quilos – bons quilos… quilos de running back. E estou pronto para usá-los.

É meio louco… você nunca sabe o que Deus tem para você. Nesta mesma parte do ano passado, eu estava falando para minha esposa não desfazer todas as caixas. Eu não tinha nem certeza se teria um emprego na Semana 1. Agora, tenho um papel fundamental no ataque.

Acho que é por isso que estou tão empolgado com a ideia de jogar como running back. Tendo o treinador McCarthy me dito que os treinadores achavam que eu poderia ser um contribuidor valioso fora do backfield significava apenas isso – que achavam que eu era valioso. Que eles me queriam aqui. Que eu fazia parte dos planos deles.

Isso significou o mundo para mim porque minha esposa e eu amamos Green Bay. É engraçado: eu nasci no Mississippi, cresci em Dallas e fiz faculdade na California. E quando eu vou a esses lugares e digo o quanto amo viver em Green Bay, eles acham que eu estou brincando ou só estou sendo legal. Como uma cidade tão pequena, tão fria e tão… Green Bay… como eu não poderia a amar como eu amo?

Mas eu honestamente amo.

Viver em Grren Bay é ter uma vida simples. Não é cheia. Não há trânsito. É quieta. Há um bom golfe, uma boa comida, boa cerveja – ótima cerveja.

Mas o que realmente resume isso é o povo.

Minha esposa e eu fizemos grandes amigos de fora do time desde quando estamos aqui. Amamos cidades pequenas. É uma comunidade em todos os sentidos, e o Packers é grande parte disso. Eu acho que em um mundo de franquias de grandes mercados e contratos de televisão de bilhões de dólares, o que temos aqui é raro.

É o tipo de coisa que só poderia acontecer em Green Bay.

E depois de viver aqui, eu não sei se consigo viver em uma cidade grande. Posso ser um cara de cidade pequena para o resto da vida.

É, de verdade, uma chance da vida jogar em uma organização vencedora como o Pakcers – com os companheiros como os que tenho agora, excelente propriedade e fantástica base de fãs em uma ótima cidade. E, para mim, ser capaz de desempenhar um papel fundamental em uma equipe que tem o objetivo de ganhar um Super Bowl é uma benção ainda maior. É tudo o que eu poderia ter pedido.

Esta temporada – minha primeira focada em running back – é só o começo. Eu amo estar em Green Bay e espero que ficar aqui seja o plano de Deus para toda a minha vida.

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Ronaldo Barreto

Jornalista formado desde 2016, mas já trabalhava na área desde 2010, quando comecei em uma rádio comunitária em Guarulhos. Fui repórter (estagiário) na Federação Paulista de Futebol (FPF) e no site do jornal Diário de S. Paulo. Neste último, fui efetivado em 2016 e passei a ser o responsável por todo o conteúdo do portal do veículo em 2017, além das redes sociais. Com o intuito de fazer o futebol americano crescer ainda mais no Brasil, criei a página NFL à Brasileira, que se expandiu para este site de notícias sobre o esporte. Além da escrita, sou muito ligado à fotografia, principalmente de esportes.

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