Cairo Santos: ‘Meu maior desejo é que meu pai pudesse ver o que está acontecendo comigo’

Por Ronaldo Barreto – Quando criança, Cairo Santos tinha o mesmo sonho de milhões de crianças brasileiras: ser jogador de futebol. Natural de Limeira, no interior de São Paulo, queria virar ídolo do esporte e fazer gols decisivos, assim como os craques que via na TV e nos estádios. Hoje, Cairo se sente realizado, já marcou “gols” importantes e muitos atletas se inspiram nele. Mas ele teve de trocar o formato da bola para isso.

*Esta entrevista também foi publicada no jornal Diário de S. Paulo, nas versões impressa e online*

Entrevista no Diário de S. Paulo

Mudando da redonda para a oval, Cairo Fernandes Santos se tornou o primeiro brasileiro na NFL (National Football League), a liga de futebol americano dos Estados Unidos, ao atuar como kicker do Kansas City Chiefs, no qual, atualmente, é titular absoluto.

Apesar de a modalidade não estar no patamar de popularidade alcançado pelo MMA (ainda), por exemplo, ela ganha cada vez mais praticantes e fãs no Brasil. A liga norte-americana considera o país como o segundo maior mercado fora dos EUA, atrás apenas do México. A presença de um brasileiro por lá, certamente, é um dos motivos para isso.

Pelo segundo ano, Cairo, embaixador da NFL no Brasil, realizou, em julho, um camp em São Paulo, para ter um encontro com o público e ensinar sua técnica aos jogadores.

Nesta conversa, o Zika das Bicudas, como é chamado nas redes sociais, fala sobre o começo difícil, a ascensão até o posto de titular do Chiefs e a popularidade do futebol americano no Brasil. Também comenta sobre a expectativa para a quarta temporada dele como profissional e revela o interesse da NFL por aqui.

Mas, principalmente, lembra-se do pai, falecido em um acidente de avião enquanto Cairo Santos ainda estava na faculdade. Ele não viu o filho brilhar, mas é homenageado sempre que o kicker acerta um chute.

Diário/NFL à Brasileira _ Quantos anos você tinha quando saiu do Brasil para fazer o intercâmbio? Já tinha ouvido falar de futebol americano na época?

Cairo Santos _ Saí do Brasil com 15 anos. Sabia que o esporte existia e que era muito popular nos Estados Unidos, mas não conhecia nada das regras ou times.

Vi em alguns lugares você falando que queria ser jogador de futebol. Como você foi parar no futebol americano? Como conseguiu a bolsa da faculdade?

Aos 15 anos, eu quis ir para os Estados Unidos para apostar no futebol, o da bola redonda mesmo, através de um intercâmbio. Aí, nos meus primeiros meses jogando futebol, meus colegas me falaram que eu tinha um chute forte e que eu deveria fazer um teste no time de futebol americano da High School (Ensino Médio). Por curiosidade de aprender um esporte novo, eu fui no treino e me dei muito bem de primeira. Então, decidi ficar mais dois anos na High School apostando em uma bolsa de futebol ou futebol americano. No final, acabei escolhendo jogar futebol americano pela Tulane University.

Depois do College (Universidade), como a NFL e o Chiefs te descobriram? Teve algum outro time que te procurou?

No meu terceiro ano na Tulane eu tive uma temporada incrível, acertei todos meus chutes e ganhei o prêmio Lou Groza, dado ao melhor kicker de faculdade dos Estados Unidos. Acredito que essa temporada me colocou no alvo de times da NFL. Tive sondagens do Arizona Cardinals e New York Jets, mas achei que o Chiefs seria uma situação melhor para ganhar uma vaga.

Qual o momento mais difícil que você enfrentou como profissional, até aqui?

Logo após ter ganhado a vaga de kicker titular no Chiefs, eu errei dois chutes nos meus primeiros dois jogos, e o time falou que eu teria mais uma chance para manter a minha vaga. Se eu errasse mais um, eles iriam me cortar do time. Graças a Deus, tudo deu certo e não errei mais por 12 jogos.

Quando você sentiu, de verdade, que fazia parte do Chiefs e percebeu que era importante para o time?

Depois do meu começo difícil com o time, eu consegui uma ótima sequência de acertos e estava ganhando confiança. Mas foi depois de um chute que dei contra o San Diego Chargers (atual Los Angeles Chargers) restando 20 segundos para acabar o jogo e que garantiu a vitória.

No ano passado, no jogo contra o Denver Broncos, um dos maiores rivais, você desempatou na prorrogação. Foi o herói, mas poderia ter sido o vilão se errasse… Sentiu um alívio ao ver aquela bola bater na trave e entrar?

Com certeza senti um alívio gigante quando vi a bola entrar. Do momento em que eu vi que a bola estava indo na direção da trave até ela entrar, acho que passou uma eternidade. Segurei a respiração até ver as mãos dos árbitros levantadas, indicando que a bola entrou. Foi incrível.

Acima, Cairo Santos dá vitória dramática ao Chiefs

Você se sente melhorando e evoluindo ainda? Se sente preparado para aumentar seu próprio recorde de chute mais longo, caso seja necessário?

Sim, acho que a cada temporada eu ganho mais confiança, força e melhoro a minha técnica.

Como você chega para esta temporada, física e tecnicamente?

Me sinto na melhor forma que já estive.

E o Chiefs, você vê um futuro bom para o time? Acha que eles têm um projeto de chegar a um Super Bowl em pouco tempo?

Estamos muito animados para essa temporada porque achamos que a cada ano a gente chega mais próximo à Final de Conferência e ao Super Bowl. Temos uma equipe de muito talento. Acredito que o Chiefs irá brigar junto ao New England Patriots e o Oakland Raiders pela AFC esse ano.

Renovou contrato por mais quanto tempo? Quando você renovou, ainda era o John Dorsey como General Manager. O que muda com a saída dele?

Eu renovei apenas por um ano, mas espero estender ainda depois dessa temporada. Acho que não muda nada. Na posição de kicker o que mais vale são as estatísticas no jogo. Então meu foco é chutar bem e o resto se cuida sozinho.

Como é a sua preparação para os jogos, sua semana? Pela posição, você deve treinar, também, a parte psicológica, não é? Como faz isso?

Fazemos treino de campo três vezes por semana e eu só chuto em dois desses três treinos. Em cada dia, chuto em média 50 bolas, trabalhando o field goal e o kickoff. É importante deixar também bastante tempo de recuperação para a perna estar rápida no dia de jogo. Eu tento não pensar muito na parte psicológica. Eu tenho a minha rotina de preparação durante a semana e confio que, se eu segui-la, eu estarei tranquilo no dia do jogo.

Em campo, quando chega a sua vez de chutar, o que você pensa? O que você avalia antes do chute?

Eu penso que o jogo é igual ao treino, mas com mais gente assistindo. Então, foco na minha rotina que pratico durante a semana e, normalmente, o único ajuste que eu tenho que fazer é mirar levando em consideração o vento., meu maior inimigo na hora de um chute.

Neve, chuva, sol… o clima em geral influencia como?

O clima influencia bastante também. No frio a na neve, a bola vira uma pedra e não vai tão longe como no calor. A chuva atrapalha mais o snapper e o holder do que a mim, mas o pior da chuva é que o gramado fica detonado mais rápido, dificultando o pé de apoio.

O primeiro jogo será contra o atual campeão, o time a ser batido, fora de casa. Como está se preparando para o duelo contra o Patriots?

Lá no Gillette Stadium venta bastante, então, estou focando meus treinos em field goals contra o vento.

Além dos chutes, você treina algum outro fundamento, algum que você só usaria em um momento específico e raro, como um passe ou até um tackle, já que carrinhos não são permitidos?

Raramente. Depois que eu descobri que não poderia usar a minha técnica de carrinho, eu tive que aprender a fazer um tackle normal, mas não pratico muito pra evitar me machucar no treino.

Com o instinto de jogador de futebol, Cairo Santos deu um carrinho para derrubar um adversário, o que não é permitido

Qual a diferença de atmosfera, de tudo que envolve o jogo, de uma partida de futebol aqui para um jogo na NFL?

No futebol americano, cada jogada é uma emoção. A torcida vibra com cada jarda que a gente ganha e cobra em cima de cada erro que a gente comete. A gente sente bastante a atmosfera da torcida. No futebol, apesar dos cantos de torcidas serem eletrizantes, as partidas costumam ter bem menos momentos emocionantes como no futebol americano.

Aqui no Brasil, no futebol principalmente, os estrangeiros precisam ser muito melhores do que os jogadores que temos aqui para conquistar seu espaço. Na NFL, você percebe isso, também? O espaço é mais restrito?

Sim, porque as maiores fontes de jogadores que vão para a NFL são as faculdades americanas. Raramente os times de NFL contratam um jogador diretamente de outro país.

Como é sua convivência no time? Os outros jogadores perguntam sobre o Brasil?

Sim, meus companheiros sempre me perguntam quando eu vou levar eles para o Brasil. Eu falo que, assim que ganharmos um Super Bowl, iremos comemorar em cima de um trio elétrico no Carnaval (risos).

Como é pra você ser, também, um responsável pelo crescimento da popularidade da NFL e do futebol americano no Brasil?

Sinto um orgulho imenso. Quando eu ainda jogava futebol, sonhava em um dia jogar pela Seleção Brasileira. Creio que, hoje, sendo o único brasileiro atuando na NFL, eu me sinto com esse papel de ídolo para os brasileiros.

Você é e sempre será o primeiro brasileiro na maior liga da modalidade no mundo. Já está na história. Sabe o que isso representa para o esporte?

Sim, penso bastante no quanto isso é importante para mim e para o futebol americano no Brasil. Meu maior projeto é que eu possa criar uma ponte para mais atletas brasileiros percorrerem o mesmo caminho que eu percorri.

O Brasil é o terceiro país em fãs da NFL. Acha que a liga já discute investir mais aqui? Trazer algum jogo, talvez…

O dono do Chiefs, Clark Hunt, é o representante internacional entre os 32 donos de time da NFL. E ele me fala que todo ano o Brasil é um tópico de discussão entre os donos para onde expandir a NFL. Acho muito bom que eles já têm o reconhecimento que o Brasil é um grande mercado e estão trabalhando as logísticas para um dia levar um jogo para o país. Espero poder fazer a minha parte e mostrar para eles a popularidade do esporte aqui no Brasil através das minhas redes sociais e Camps de futebol americano que faço no Brasil.

No Camp, várias pessoas quiseram tirar fotos e pegar autógrafos. Demonstraram muito carinho. Como é isso para você?

Eu ainda não me sinto uma “estrela” porque ainda tenho muitos objetivos que quero alcançar dentro e fora de campo. Então eu me emociono bastante quando sou recebido com tanto carinho assim.

Descobriu alguém talentoso no Camp?

Sim, descobri que o brasileiro leva jeito pra chutar qualquer bola. Tem muito talento no Brasil.

Acha que tem algum brasileiro jogando no High School ou College que tem chances de ingressar na NFL?

Sim, tive a oportunidade de treinar com o Rafael Gaglianone, da Universidade de Wisconsin, e ele tem potencial de NFL. Estarei torcendo por ele.

No Camp, era um lugar onde as pessoas foram para te ver. Mas e na rua, você é reconhecido quando vem ao Brasil? Te param? E nos Estados Unidos, acontece?

Não muito. Acho que o fato da gente usar capacete o jogo inteiro dificulta o reconhecimento do rosto.

Vejo sempre você falando que, no futebol, torce para o Flamengo. Consegue acompanhar de longe? Esse ano o time leva alguma coisa?

Acompanho todos jogos pelas redes sociais. É difícil assistir aos jogos daqui dos Estados Unidos, mas sempre sei quando o Mengão vai jogar. Acho que a gente leva a Copa do Brasil esse ano. Vai ser difícil parar o Corinthians no Brasileiro.

Como se sente em Kansas? Se adaptou facilmente? Você mora com sua família ou eles ficaram no Brasil?

Fora o frio, Kansas City é muito bacana. O povo e a comida daqui são as melhores partes. Moro sozinho, minha família fica no Brasil e vem me visitar durante alguns jogos.

Do que mais sente falta do Brasil?

Da minha família inteira. Sempre que nos reunimos criamos muitas lembranças. E, também, de um bom arroz e feijão.

Quando acerta o chute, você aponta para o céu. Você já comentou que é uma homenagem para o seu pai. O quanto ele foi importante para você chegar onde chegou? (Nota: O pai do Cairo era piloto de avião e morreu, em 2013, em um acidente durante acrobacias)

Ele foi a pessoa que me convenceu a fazer aquele intercâmbio, aos 15 anos. Ele acreditava que seria um investimento grande na minha vida e carreira esportiva. Meu maior desejo é que ele pudesse ver tudo o que está acontecendo comigo de perto.

Ronaldo Barreto

Jornalista formado desde 2016, mas já trabalhava na área desde 2010, quando comecei em uma rádio comunitária em Guarulhos. Fui repórter (estagiário) na Federação Paulista de Futebol (FPF) e no site do jornal Diário de S. Paulo. Neste último, fui efetivado em 2016 e passei a ser o responsável por todo o conteúdo do portal do veículo em 2017, além das redes sociais. Com o intuito de fazer o futebol americano crescer ainda mais no Brasil, criei a página NFL à Brasileira, que se expandiu para este site de notícias sobre o esporte. Além da escrita, sou muito ligado à fotografia, principalmente de esportes.

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