Johnny Hekker: “O que você não sabe sobre ser um punter”

Johnny Hekker quer provar que punter também é gente.

No site The Players’ Tribune, os jogadores são os colaboradores e contam as mais variadas histórias de todos os esportes. Há relatos de Pelé, Ronaldinho Gaúcho, do futebol; Lebron James, Shaquille O’Neal, do basquete; vários jogadores de futebol americano.

Já publiquei aqui um relato emocionante de Ricardo Lockette, quando sofreu uma séria pancada durante uma partida, Cam Newton falando sobre a emoção de ter um filho (confira todos aqui)… entre outros. Desta vez, Johnny Hekker, punter do Los Angeles Rams, contou como é exercer essa profissão, em uma posição do FA que não tem os mesmos holofotes que as outras. Eles até precisam afirmar que Punter Também É Gente. Confira (e perdoem se a tradução estiver muito ruim):

Link do Players’ Tribune

 

“O que você faz como trabalho?”

Eu estava no quintal da minha casa, quando meu vizinho colocou a cabeça sobre a cerca de madeira que separa nossos jardins e me perguntou sobre meu trabalho.

“Eu sou um punter dos Rams.”

“Ah, então você é o kicker (Chutador)?”

“Uhhh, bem… não exatamente.”

Eu entendo isso. As pessoas descobrem o que eu faço para viver – ou eles perguntam e eu conto, ou eles me veem na TV e me reconhecem – e me confundem com o kicker. Eles dizem algo como: “Você tem que trabalhar duro, porque ou você acerta eles (chutes) ou erra”. Se são torcedores dos Rams, dizem: “Obrigado, cara. Você conseguiu alguns pontos na semana passada! “

Às vezes eu corrijo as pessoas. Depende de onde eu estou e qual é a situação.

Na maioria das vezes, eu apenas deixo quieto.

Eu sabia que meu vizinho não entendia muito de futebol americano, então, expliquei a ele que punter é diferente de kicker – que são duas pessoas diferentes com dois trabalhos completamente diferentes. Ele me diz que agora, quando assisti aos jogos e vê o time se preparando para o punt, pensa: ‘Ei, isso é o que o Johnny faz!”

Ele está aprendendo.

Ser um punter não é tão glamouroso quanto parece. Tenho certeza que você nem pensou que pudesse ser glamouroso para começar, mas a verdade é que, como qualquer outro trabalho, tem seus altos e baixos. Quero dizer, se eu deixar o adversário dentro da linha de 10 jardas, os caras não vêm me cumprimentar. Ninguém nas arquibancadas levanta da cadeira para torcer. Se alguém se levanta do seu lugar quando eu estou em campo, provavelmente, é para pegar um cachorro-quente ou uma cerveja.

Eu sou aquela música que toca durante o intervalo dos concertos, quando o público vai ao banheiro. Mas eu estou de boa com isso…

No jogo, 95% de ser um punter é ficar esperando. Para a maioria, eu estou apenas de pé na lateral do campo, tentando manter as coisas claras e incentivar o resto dos caras. Então, quando é a minha vez de brilhar, tenho que ir bem, porque eu não tenho tantas oportunidades.

Mas não é só chegar no domingo, no dia do jogo, e falar: ‘E aí, pessoal. Como foi sua semana? Vim aqui só para dar o punt aí’

Há muito mais do que isso.

‘True Story’: Na verdade, queria ser um quarterback.

Quero dizer, eu era um quarterback… na escola. Eu tinha toda a intenção de jogar como lançador na faculdade, também. Crescendo em Bothell, Washington, sempre sonhei em jogar no que era então o Pac-10 (Subdivisão da NCAA, atualmente é Pac-12, com 12 universidades). Oregon State era uma das escolas que eu considerava ir. Frequentei os treinos de quarterback dos Beavers no colégio, e conversei com os treinadores depois que eles me viram lançar. Eles disseram que entrariam em contato.

E ele tem até talento para isso. Olha os fakes do Los Angeles Rams:

Algumas semanas depois, recebi um telefonema do treinador de ‘special teams’. Lembro-me de pensar: ‘Isso é meio estranho… por que o treinador das equipes especiais me ligaria?’

No recrutamento universitário, os treinadores são responsáveis ​​por uma região específica. Assim, você poderia ser um recebedor, mas – porque você vive em uma determinada área – é recrutado pelo treinador de uma equipe de corredores. Então, eu percebi que o treinador das equipes especiais estava me chamando porque eu estava em sua região.

Acontece que Oregon State já havia feito uma oferta para outro quarterback da minha turma, e eles não tinham bolsas suficientes para oferecer a outro lançador.

Então eles tiveram outra ideia.

“Vimos alguns de seus filmes”, disse o treinador. Minha fita de destaque tinha cerca de sete minutos de duração – seis minutos comigo lançando, um minuto comigo dando punts.

Ele assistiu o último minuto.

“Nós pensamos que você poderia vir para cá. Não temos um punter e pensamos que podemos transformá-lo em um com uma bolsa de estudos”.

Eu tinha algumas ofertas para jogar de quarterback em escolas menores, mas jogar no Pac-10 era o meu desejo. Oregon State tinha o que eu queria e eu realmente gostei dos treinadores… tudo o que eu tinha a fazer era ganhar o trabalho de punting inicial.

Problema era que eu não sabia como dar um punt. Eu sabia que se chutasse uma espiral, era bom. Mas, fora isso, eu sabia sobre punt tanto quanto o meu futuro vizinho.

Mas eu decidi me arriscar. Concordei em ir para Oregon State, sacrificando meu desejo de jogar como quarterback para realizar meu sonho de jogar no Pac-10. No verão antes do meu ano de calouro, fui para o treinamento de kickers e punters no Alabama.

Comecei a treinar com o técnico Mike McCabe no ‘One On One Kicking camp’ – um dos campos de treinamento dos kickers e punters de elite no país. No primeiro dia, fui para o campo usando o mesmo equipamento que usava quando jogava de quarterback. Então, os treinadores me disseram que a primeira coisa que eu tinha que fazer era pegar um par de chuteiras de futebol americano, algo realmente apertado no meu pé que me ajudaria a ter uma boa sensibilidade para dar um chute melhor, o que me faria gastar menos energia. Uma chuteira mais grossa, segundo me disseram, absorvia a energia do meu pé em vez de transferi-la para a bola, diminuindo o meu poder de punting.

Então, antes mesmo de eu chegar no campo, eles provavelmente estavam pensando: ‘Esse cara não sabe o que está fazendo’.

Eu estava trabalhando fora com outros calouros – punters de verdade que foram recrutados para serem iniciantes em suas respectivas universidades. E uma vez que eu entrei no campo e começamos a jogar, os outros estavam quebrando em todos os chutes. Bombas.

Mas para mim foi mais como… quebrava uma, quatro caneladas.

Percebi que o punt dos outros caras era mais compacto, mais rápido. Eles pegavam a bola, davam passos curtos e então mandavam longe.

Quando estava no colégio, a maioria das equipes não se concentrava em bloquear os punts, então eu tinha o dia todo para dar o chute. Recebia o snap, ‘enrolava’ um pouco com a bola e, em seguida, dava três ou quatro passos antes de chutá-la. Mas na faculdade você está jogando contra os caras mais rápidos do ensino médio, e eles chegam duro para te bloquear quase toda vez.

Além disso, tenho 6’5” (1,96 metro), pernas longas. Então eu tomava longos passos.

Foi quando eu aprendi sobre o ‘tempo de operação’, ou ‘get-off time’, que é o momento entre a saída da bola no snap e o meu chute. Um ótimo tempo seria em torno de 1,9 segundo, que parecia um relâmpago para mim.

Uma vez que os treinadores identificaram as coisas que eu precisava para trabalhar – que foi praticamente tudo – eu parei de ficar dando só chutões e comecei a trabalhar as etapas individuais do processo de punting. Porque a arte de dar um punt tem pouco a ver com realmente chutar a bola, e tudo a ver com o que acontece antes.

Primeiro, nós trabalhamos em receber o snap. Quando pegava a bola, eu estava trazendo-a em meu corpo, como um recebedor tentando garantir um passe. Mas trazê-la para o meu corpo significava que eu tinha que levá-la de volta para longe do corpo para soltá-la, o que era um desperdício de movimento – e de tempo.

Os treinadores me fizeram pegar 100 snaps antes que eles me deixassem passar para qualquer outra coisa, e eu tinha que acertar toda vez – longe do meu corpo, laços, repetição.

Em seguida, trabalhamos em meus passos.

Como eu disse, sou alto. Se você já me viu correr, sabe por que as pessoas me dizem que eu tenho a marcha de uma girafa. Então, meus passos me roubavam força. Como manter minhas longas pernas dando passos curtos foi provavelmente a coisa mais difícil de aprender.

Quando nós finalmente trabalhamos o punting de verdade, eu aprendi que eu estava mais próximo das coisas erradas. Eu achei que o impulso para a frente era o que gerava a força do chute. Mas o poder de um punt vem do seu pé de apoio – do chão para cima. Então, quando você soltar a bola, em vez de colocar a perna de apoio para frente e se dirigir à bola, como faz o kicker, você tem que se movimentar verticalmente – tipo um salto – e explodir a bola.

Eu, definitivamente, fazia isso muito mal até ficar bom. Houve muita repetição, e um monte de caneladas. Mas por causa do grande treino que eu recebi no ‘One on One Kicking’, fui para o Oregon State e ganhei o trabalho inicial de punting – e uma bolsa de estudos – como um verdadeiro calouro.

História louca: Haviam dois punter calouros em Oregon State naquele ano – Ryan Allen e eu -, ambos treinados pelo técnico McCabe, no Alabama, no verão anterior. Ryan estava em seu ano de calouro e foi meu reserva em 2009. Na temporada seguinte, Ryan foi transferido para Louisiana Tech, onde ganhou o prêmio Ray Guy (como o melhor punter do país). Hoje, ele joga no Patriots e tem dois anéis de Super Bowl.

Então, dois jogadores que passaram por Oregon State ao mesmo tempo fizeram o seu caminho para a NFL. Muito legal.

E o treinador McCabe tem feito tanto por nós – me ensinando a dar punts e fazendo Ryan passar de um bom punter para o melhor do país – que queria poder treinar com ele até hoje.

Agora que eu contei o meu caminho para ser um punter, vamos falar sobre alguns dos pontos mais legais do ofício.

Se você está pensando: “Espera, nós ainda estamos falando sobre punt?”, eu não culpo você. Mas eu prometo que vou tentar torná-lo tão emocionante quanto humanamente possível.

Então, vou começar falando sobre Devin Hester.

 

Esse cara me aterrorizou – e, provavelmente a todos os outros punters da liga. A primeira vez que eu chutei um punt para ele eu estava no terceiro jogo da minha temporada de estreia. Eu tinha, obviamente, visto seus melhores momentos, então, em minha mente, chutar para ele poderia dar em três resultados:

1 – Um punt que eu chutasse para fora do campo

2 – Um ‘fair catch’ (quando o retornador vai receber a bola, ele sinaliza que não irá retornar e o time começa de onde ele pegou)

3 – Um retorno que chegaria até o meio do campo – às vezes ia o campo todo

Com um cara como Devin, você precisa ter um chute bem direcionado. Quero dizer, você não pode apenas jogar a bola no meio do campo e deixá-lo escolher aonde ele quer ir. Você tem que usar a lateral, encurralá-lo no canto e dar à sua equipe de cobertura a chance de derrubá-lo.

Parece simples, mas o que torna o directional punt tão difícil é que quando você chuta a bola, você quer que ela faça uma espiral para cortar o ar, aumentando a distância e o tempo que ela fica suspensa no alto. Mas uma bola em espiral não voa do seu pé em linha reta. Se você for destro, uma bola em espiral vai naturalmente sair à direita por causa da forma como a bola gira.

Você nunca está enfrentando a direção em que você gostaria que a bola fosse. Isso é o que torna o directional punting tão difícil. Chutá-la fora dos limites do campo é igualmente complicado. Portanto, a menos que as condições sejam perfeitas e você esteja realmente batendo bem na bola, geralmente é um último recurso.

Forçar um fair catch é a melhor opção – e há realmente uma receita para isso.

Vamos dizer que você quer chutar um punt de 45 jardas. Para sua equipe de cobertura chegar rápido no retornador, forçando-o a fazer o sinal de fair catch, você precisa deixar a bola suspensa no ar por 4,5 segundos. Para um punt de 50 jardas, você precisa de 5,0 segundos de tempo de parada. Está me acompanhando?

A quantidade de tempo de suspensão em relação à distância do punt dá à equipe de cobertura o tempo suficiente ganhar campo, forçando o retornador a pedir o fair catch, em vez de dar-lhe espaço para retornar.

Quando você começa a dar vários punts de mais de 50 jardas, fica mais difícil manter a bola suspensa no ar por muito tempo – como quando a taxa de sucesso de um kicker cai porque ele dá chutes de mais de 50 jardas. Quão longe você quer que o chute vá só depende de onde sua equipe está posicionada no campo.

Acho que a moral da história é: Punters são pessoas, também. É meio que um trabalho ingrato, e isso me irrita um pouco quando alguém diz: “Oh, você é um punter. Você não é um jogador de futebol americano de verdade”. Eu acho que falo por todos os punters e kickers quando eu digo que temos um monte de respeito pelos caras que estão lá fora, o jogo inteiro batendo, sendo atacados e fazendo todo o trabalho sujo. Isso não é o que nos pedem.

Nós praticamos toda a semana, assim como o resto da equipe. Nós assistimos os filmes toda a semana, também, estudando as tendências dos special teams adversários, concentrando-se em como eles tentam bloquear os punts e vendo onde poderíamos ser capazes de explorá-los com jogadas ensaiadas ou fakes. Estamos na sala de musculação e no campo, trabalhando no nosso timing e punting – todas as mesmas coisas que as outras unidades fazem.

Há também um nível diferente de pressão para o que fazemos.

Quando a minha equipe está com as costas na endzone, no final do último quarto, vencendo por dois pontos e eu preciso deixar o adversário longe para que eles não consigam chutar um simples field goal – e se eu não fizer meu trabalho, minha equipe perde – isso é pressão. E essa é uma das coisas que eu amo no meu trabalho.

Há momentos em que sinto falta de jogar como quarterback. Não há nada como a emoção de lançar um passe em uma janela pequena e ver o recebedor levá-la para casa, ou estar no huddle durante uma longa campanha para um touchdown.

Eu tive sorte de ser treinado por técnicos que me ensinaram pacientemente.

Lembre-se: tenho 1,96m, pernas longas, corro como uma girafa. Então, você não vai me ver correndo no meio de um fake punt tão cedo. Mas é definitivamente uma volta aos meus dias de glória na escola quando meu número é chamado em um fake – um pouco assustador, mas ainda muito legal.

Ser um punter definitivamente não é tão glamouroso como jogar de quarterback, mas, ei, esta é a vida que eu escolhi quando eu fui para Oregon State. Eu arrisquei e não voltaria atrás.

Eu posso estar na lateral do campo por 95% do jogo, mas pelo menos eu tenho o melhor lugar para assistir a partida no estádio.

Hekker ainda é um fanfarrão, como este vídeo mostra:

 

Ronaldo Barreto

Jornalista formado desde 2016, mas já trabalhava na área desde 2010, quando comecei em uma rádio comunitária em Guarulhos. Fui repórter (estagiário) na Federação Paulista de Futebol (FPF) e no site do jornal Diário de S. Paulo. Neste último, fui efetivado em 2016 e passei a ser o responsável por todo o conteúdo do portal do veículo em 2017, além das redes sociais. Com o intuito de fazer o futebol americano crescer ainda mais no Brasil, criei a página NFL à Brasileira, que se expandiu para este site de notícias sobre o esporte. Além da escrita, sou muito ligado à fotografia, principalmente de esportes.

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