Lawrence Garrett: ‘O Myles Garrett que eu conheço’

Myles Garrett foi escolhido pelo Cleveland Browns na 1ª pick do Draft da NFL 2017 (confira como foi a primeira rodada do Draft 2017). Nenhuma novidade. O defensive end mostrou no futebol americano universitário que é uma máquina de derrubar quarterbacks e deixar os jogadores de linha ofensiva perdidos. É rápido, explosivo e agressivo, qualidades que o colocaram como o melhor nome do recrutamento nesta temporada.

O talentoso jovem de 21 anos, no entanto, já é o orgulho do seu pai, Lawrence Garrett, desde sempre. Ao The Players Tribune (site que é abastecido com textos dos próprios atletas, de diversas modalidades – Ronaldinho Gaúcho, Michael Jordan e até Pelé já escreveram nele), Lawrence falou, antes do Draft, como é o seu filho fora dos gramados. O pai, é claro, foi só elogios ao comportamento de Myles, mas é interessante saber como a família é importante para o surgimento de grandes astros e perceber que um atleta de verdade não é só o que vemos no campo.

Confira a tradução (já adianto que pode haver erros; quem quiser pode apontá-los. Agradeço):

O Myles que eu conheço

Uma coisa que você deveria saber sobre o meu filho, Myles, é que ele não faria mal nem a um inseto.

Realmente, ele não faria isso.

Lembro que uma vespa entrou em nossa casa uma vez e estava lá em cima, em seu banheiro. Se você nunca viu uma vespa do norte do Texas, elas são grandes. Eu tinha notado a vespa zumbindo e disse: “Myles, mata ela”.

*Aqui, outra coisa que você deveria saber sobre o Myles é que ele é um garoto muito obediente. Nunca tive que realmente discipliná-lo. Nunca teve uma fase rebelde. Ele era sempre decente e tentava fazer o que era certo.

Mas isso era uma coisa que ele, simplesmente, não faria.

Não era porque estava com medo da vespa. Na verdade, era o oposto. Ele até simpatizava com ela.

Myles olhou para mim e disse: “Pai, está tudo bem. Ela vai encontrar o caminho para sair de casa”.

Então, eu entreguei a ele um Raid. “Menino, e se aquela vespa desce e pica a sua mãe?” eu disse, “você e eu não vamos querer ver o fim disso”.

Então, Myles balançou a cabeça e disse: “Pai, tudo nesta terra tem um propósito e merece o direito de viver”.

Isso me fez parar. Eu nunca tinha pensado nisso dessa maneira.

Agora, você pode estar pensando ‘Myles deve ter sido muito gentil quando criança’.

Bem, sim, é verdade… mas isso aconteceu NO ANO PASSADO!

O Draft da NFL é um processo longo – talvez até demais. Eu entendo que há um monte de pessoas cujos trabalhos são apenas criticar esses garotos e descobrir o que há de “errado” com eles. Sempre disse a Myles que nem todo mundo iria amá-lo. Haverá pessoas que são negativas em relação a ele só porque podem ser. Ele sempre entendeu isso.

Mas é importante para mim que as pessoas saibam que Myles Garrett é muito mais do que apenas um jogador de futebol. Ele é algo muito mais importante do que isso.

Ele é uma ótima pessoa.

Ele sempre foi rápido. No dia em que ele nasceu, enquanto minha esposa estava em trabalho de parto, eu tinha deixado a sala por alguns minutos para ir com minha mãe pegar algo para comer. Dois anos e meio antes, eu estava ali para pegar a irmã mais velha de Myles, Brea, assim que ela nasceu, e minha esperança era fazer o mesmo com ele. Mas ele tinha outros planos.

Quando voltei, havia um bebê grande e gordinho esperando por mim. Lembro-me apenas de pensar ‘Nossa, ele é grande’. Foi um bom dia.

Eu sempre soube que ele seria um atleta. Minha esposa fez atletismo na faculdade, e eu tinha praticado esportes minha vida inteira. Tudo indicava que Myles adoraria esportes também. E eu imaginei que ele seria muito competitivo – isso é também é algo de família.

Em um dos primeiros encontros com minha esposa, a levei para uma pista de boliche e depois jogamos aquele ‘Air Hockey’ (jogo com um disco em uma mesa). Ali, não era mais só um jogo. De jeito nenhum. Estávamos dando tudo. Uma hora, marquei três ou quatro pontos seguidos. Ela jogou o disco em mim. Honestamente, eu achei incrível. Um pouco selvagem… mas ótimo.

Myles sempre teve esse mesmo espírito competitivo. Quando ele era um garotinho e perdia em um jogo de tabuleiro ou ele estava frustrado com seus irmãos, ele colocava os punhos na cabeça e começava a rosnar. Deus, isso fez toda a nossa família rir muito.

Ele sempre foi um garoto muito grande, mas eu não percebi o quanto ele era especial como atleta até quando ele chegou à sétima série. Eu era seu treinador de basquete e – Deus o ajude – o garoto não conseguia fazer aquilo. Nós trabalhamos e trabalhamos, fazendo exercícios e mais exercícios, mas simplesmente não dava. Ele não era, naturalmente, um jogador de basquete. Não me refiro a como ele ia mandando bolas no aro. Quero dizer, este garoto estava subindo e descendo a bola. Essa foi a primeira vez que eu realmente comecei a pensar ‘Hmmmm nós podemos ter algo aqui’.

Eu nunca empurrei o Myles para os esportes. Nunca precisei. Ele sempre parecia muito feliz quando estava em um campo correndo, e eu também estava. Ele finalmente pegou o jeito do basquete quando estava no ensino médio, mas, nessa mesma época, também começou a ficar claro que seu futuro estava no futebol americano. De qualquer forma, basquete era algo que ele precisava trabalhar, o futebol veio naturalmente para ele. Ele continuou ficando cada vez melhor a cada ano em que ele jogava e, quando se formou, ele foi considerado um dos melhores recrutas do país.

Nada disso aconteceu por acidente.

Qualquer pessoa que questione o desejo de Myles de se esforçar, realmente, não o entende como uma pessoa. Acho que as pessoas o veem brincar e percebem como ele nunca faz dancinhas ou fica se exibindo, e eles entendem que ele não se importa. Mas é aí que estão todos errados. Uma coisa que eu nunca tive que fazer na minha vida é encorajar Myles a tentar mais. Ele se mantém em um padrão mais alto do que eu – e certamente, do que qualquer analista ou treinador – poderia pensar. Mas ele é uma pessoa muito interna. Sua motivação vem de dentro, e não daqueles que o rodeiam.

Acho que deu certo para ele até agora.

Há várias razões que me fazem sentir confiante de que ele está pronto para a NFL.

Para começar, ele nunca deixa que o sucesso o mude. Ele ainda anda com o mesmo pequeno círculo de amigos que ele tinha desde a escola primária. Quando ele tem um problema, ainda pede conselhos para os pais. E, acima de tudo, ele é um ouvinte. Ele é alguém que dá aos outros o benefício da dúvida até que lhe dê uma razão para não ter dúvida. Ele não se afasta da notoriedade ou da atenção; Ele simplesmente não se alimenta disso. Eu acho que isso é importante, agora mais do que nunca.

Isso é algo que ele nunca vai dizer, mas se há uma coisa que eu espero para ele como um profissional, é que os árbitros da NFL vão jogar a ‘flag’ nas jogadas dele. Na SEC, vi rapazes saltar sobre as costas de Myles, puxar sua máscara facial e fazer todo o tipo de coisas fora das regras, a fim de detê-lo. Como um fã de futebol, foi frustrante. Como um pai, ele me deixou absolutamente louco. Mas Myles nunca deu desculpas.

E essa é outra razão pela qual eu acho que, enquanto Myles estiver saudável, ele vai lidar com seus negócios em um nível acima. Ele vai fazer as coisas funcionarem.

Eu não vou ficar sentado e prever que tipo de carreira profissional ele vai ter. Eu só vou incentivar os fãs de qualquer equipe que o escolha para fazer a mesma coisa que eu tenho feito desde que ele era pequeno: Assistir.

Sério, apenas sente-se, o veja se desenvolver e descubra que tipo de jogador ele se tornará. Você pode dizer o que quiser sobre ele, mas como eu disse antes, posso garantir que ninguém coloca Myles em um nível mais elevado do que o que ele se coloca. E é por isso que eu sinto que ele vai encontrar uma maneira de prosperar onde quer que ele jogue.

Assistir Myles jogar futebol é muito divertido, mas o que realmente me deixa orgulhoso é que ele não deixa o esporte defini-lo. Não é a única coisa que ele se preocupa. Ele gosta de ler, desenhar e encontra interesses no mundo ao seu redor. Isso pode ser uma razão para algumas pessoas criticá-lo, mas é também uma das coisas que eu mais amo nele.

Em dezembro, fui junto com Myles para uma visita ao Children’s Hospital no M.D. Anderson Cancer Center, em Houston. Foi sua segunda visita ao hospital como finalista do Lombardi Award, mas foi a primeira vez que eu estive lá com ele. Naquele dia, eu simplesmente fiquei ali, maravilhado com o quão bem ele interagiu com os pacientes jovens e os funcionários. Ele posou para fotos com todos e levou mais tempo para se certificar de cada um deles se sentiu especial.

Esse é o meu garoto.

Eu tinha pessoas chegando até mim, apertando minha mão e dizendo: “Eu só quero elogiar você e sua esposa por fazerem um trabalho tão bom com seu filho.”

Eu vi Myles jogar homens de 130 quilos longe, como se fossem bonecas de pano. Eu ouvi ele fazer 100 mil pessoas torcerem e gritarem a plenos pulmões. E eu vou assistir ele ser escolhido na primeira rodada do draft NFL.

Mas isso – a maneira como ele tratava aquelas crianças no hospital – significa mais para mim do que qualquer outra coisa.

O que torna Myles especial não é que ele é um jogador de futebol. Nem perto disso. E é por causa dessas qualidades que eu sei que ele seria bem sucedido em tudo o que ele escolhesse para sua vida.

E eu ainda estaria tão orgulhoso dele.

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Em campo, alguns lances do camisa 15:

Ronaldo Barreto

Jornalista formado desde 2016, mas já trabalhava na área desde 2010, quando comecei em uma rádio comunitária em Guarulhos. Fui repórter (estagiário) na Federação Paulista de Futebol (FPF) e no site do jornal Diário de S. Paulo. Neste último, fui efetivado em 2016 e passei a ser o responsável por todo o conteúdo do portal do veículo em 2017, além das redes sociais. Com o intuito de fazer o futebol americano crescer ainda mais no Brasil, criei a página NFL à Brasileira, que se expandiu para este site de notícias sobre o esporte. Além da escrita, sou muito ligado à fotografia, principalmente de esportes.

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