‘Estou prestes a morrer?’: Relato de Ricardo Lockette

Ricardo Lockette, ex-recebedor do Seattle Seahawks, sofreu uma grave lesão em novembro de 2015. Em um retorno de punt (chutão), o jogador foi bloqueado por Jeff Heath, dos Dallas Cowboys, caiu e ficou imóvel no chão, em uma cena chocante para quem estava no estádio ou via pela Tv.

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Ele foi levado às pressas para o hospital, onde ficaram diagnosticados danos nos ligamentos do pescoço. Em maio de 2016, Lockette resolveu se aposentar, aos 29 anos, e fez um relato emocionante, onde contou cada detalhe do dia e revelou o que o fez resolver pendurar as chuteiras. Traduzimos e o texto ficou assim (perdoem os erros, o que vale é a ideia do texto):

Aqui o original, em inglês

Antes, veja o vídeo

“ESTOU PRESTES A MORRER?

Era como estar em um acidente de carro. Tudo foi muito rápido, e aí, de repente, ficou tudo lento. Eu estava correndo para cobrir um punt, no jogo contra Dallas, na temporada passada (2015-2016), como já tinha feito milhares de vezes. Saí da marcação de um bloqueador, cortei para a minha esquerda e vi uma jersey branca.

Como um acidente de carro.

Caí no chão e ouvi um som que você nunca vai querer ouvir. Quando você tem um encontro com a morte, as pessoas dizem que você vê uma luz. Bem, eu não vi uma luz. Eu ouvi um barulho. Você sabe o barulho que estou falando – como quando você era uma criança, entediado em uma festa de família, e você correu o dedo ao redor da parte superior do copo de vinho da sua tia. É tão estranho, um som de toque.

Foi aterrorizante. Eu não podia ouvir a multidão. Eu não podia ouvir os meus companheiros de equipe. Foi quando eu percebi que era ruim.

Eu estava pensando: ‘vamos lá, levante-se. Levanta logo.’

Mas eu não podia levantar. Meu corpo estava paralisado. Eu não podia mover meus braços. Eu não podia mover a cabeça. Eu não podia falar.

Tudo o que eu podia fazer era mexer os olhos. Eu estava pensando:

Estou surdo?

Paralisado?

O que está acontecendo?

Estou prestes a morrer?

Por favor, alguém venha me ajudar.

Naquele momento, me senti completamente impotente. Quer saber o que senti? Você já experimentou a paralisia do sono? Imagine que você acorda de um sonho e pode ouvir todos em sua casa, fazendo café da manhã, conversando e rindo, mas você não pode se mover. Não importa o quanto tente, você não consegue se levantar. Você está preso entre estar dormindo e estar acordado.

Você está deitado ali, preso dentro de seu próprio corpo, enquanto o mundo passa à sua volta. Isso é exatamente o que senti, só que eu não estava na cama. Eu estava na linha de 50 jardas do estádio dos Cowboys, rodeado por 90.000 torcedores.

Eu disse a mim mesmo: “Senhor, apenas me ajude. Eu sei que eu estou aqui por uma razão. Se você me ajudar a sair disso, eu vou mudar vidas”.

Foi a segunda vez que eu disse isso para mim mesmo.

Nunca falei sobre isso antes, mas a primeira vez que fiz essa promessa foi na faculdade. Estava conversando com uma garota quando seu namorado se aproximou e apontou uma arma para mim. Era um revólver, consegui ver as balas no tambor. Não sabia se iria conseguir sair vivo dessa.

Naquele momento, quando estava olhando para o tambor da arma, eu disse a mim mesmo: “Senhor, por favor, me ajude. Eu prometo que vou mudar vidas.”

O cara colocou a arma no chão e nós conversamos.

No estádio dos Cowboys, me vi pedindo a Deus para me salvar novamente.

É meio louco o que importa para você quando se está nessa situação. Carros, jóias, casas grandes, Super Bowls? Tudo parece tão sem sentido. Eu vim do nada. Não fui draftado, fiquei no practice squad (jogadores que não estão no elenco principal), fui deixado de lado várias vezes e cheguei ao Super Bowl. Tenho um ditado, um tipo de mantra: “Cem dólares e um sonho”. Quando cheguei ao Training Camp do Seahawks, como um calouro não-draftado, tudo o que eu tinha no meu nome era uma sacola de roupas, minhas luvas e uma centena de dólares.

Eu queria uma Lamborghini preta e uma casa de sete cômodos. Isso era o que eu sonhava.

Agora, de repente, eu não podia me mover. E a única coisa que importava para mim, em todo o mundo, era ser capaz de ver minha família de novo, ter os meus filhos nos meus braços.

Então, me lembrei de algo que partiu meu coração. Minha filha estava no meio da multidão. Era seu aniversário de 10 anos. Ela queria ir a Dallas para me ver jogar. Agora, ela estava vendo o pai deitado no campo, rodeado por colegas de equipe e treinadores.

Senhor, você tem que me ajudar.

Quando seu primeiro filho nasce e você olha nos seus olhos pela primeira vez, você sente um amor e um calor como nunca sentiu antes. Algo que você não sabia que existia.

Bem, isso era exatamente o oposto. Era uma escuridão fria. Um frio que eu não sabia que existia. Quando você não pode se mexer, há tantas incertezas que passam pela sua mente a um milhão de milhas por hora. 10 minutos parecem 10 dias. Então, do momento em que levei a pancada até a hora em que cheguei ao hospital… cara, foi uma longa viagem.

Eu nem sabia o que estava errado, até que cheguei ao hospital. Depois de um monte de testes, os médicos explicaram que todos os ligamentos e cartilagem que conectam minhas vértebras tinham sido danificadas seriamente. Meu pescoço quase foi quebrado. Se os treinadores e o pessoal da emergência tivessem me movido para o lado errado, ou um companheiro de equipe tivesse tentado me ajudar, eu poderia ter morrido.

Minha vida estava nas mãos certas. Eu tinha uma equipe incrível de pessoas em torno de mim naquele dia, o que salvou minha vida. Honestamente. Eles salvaram a minha vida.

Quando fui colocado na cama do hospital com um grande colar cervical, minha filha estava do lado de fora, implorando para me ver. Eu ainda estava com a minha calça azul marinho do Seahawks e minhas brilhantes chuteiras verdes. Eu só não queria que ela visse o pai assim. Sempre disse a ela: “Seu pai é uma estrela do rock. Ele pode fazer qualquer coisa”. Porque eu quero que ela acredite que ela pode fazer qualquer coisa.

Levei uma boa hora para me recompor antes que eu dissesse à enfermeira para deixá-la entrar no quarto. Isso foi mais doloroso do que a pancada. Esses foram os piores 60 minutos da minha vida. Limpei as lágrimas dos meus olhos e entrei no ‘Modo papai’.

Mas, quando ela entrou, cara. Isso é tudo no mundo. É por isso que você continua lutando.

Eu disse a ela: “Não se preocupe, querida. Não é tão ruim. Eles vão colocar umas coisas no meu pescoço e eu vou ficar bem”.

Ela começou a chorar.

Eu disse: “Não se preocupe, o papai vai ficar bem. O que eu sou, baby?”

“Você é uma estrela do rock”.

“Eu sou uma estrela do rock. Posso fazer qualquer coisa e você também pode”.

Ela me deu um beijo na bochecha e a enfermeira a levou para fora do quarto.

Eu sabia que, provavelmente, seria a última vez que ela viria seu pai com um uniforme da NFL. Isso foi muito difícil.

Após a cirurgia e algumas semanas de reabilitação, eu estava andando muito bem e estávamos jogando basquete novamente. Mas alguns meses mais tarde, no início de maio, eu tomei a decisão de aposentar do futebol, aos 29 anos.

O treinador Carroll costumava nos falar o tempo todo: “Você vive em um conto de fadas temporário”.

Seus fãs são temporários.

Os seus treinadores são temporários.

Seus companheiros de equipe, mesmo que eles te amem muito, são temporários.

As grandes casas em que vive são temporárias.

Você pode desfrutar de todas essas coisas, mas não é o que vai lhe trazer felicidade.

Eu realmente não entendia o que o treinador Carroll queria dizer com isso, até o momento em que fui esvaziar o meu armário neste mês. Meus companheiros estavam se preparando para os OTAs (Organized Team Activities, parte do treinamento durante a pré-temporada), e eu tinha muito tempo para sentar e ficar pensando. Um dia, eu abri meu armário e vi muitas roupas que não precisava mais.

Sapatos, camisas pólo do Seahawks.

Achei que não precisava mais de tudo isso, e alguém poderia aproveitar essas coisas melhor do que eu. Então, coloquei tudo em um saco de lixo branco e saí. Meu condomínio é no centro, e há um grande número de moradores de rua que se abrigam em torno do meu prédio, mas nem todo mundo é do meu tamanho. Eu estava andando com a bolsa no ombro quando vi um homem negro, mais velho, que era da minha altura. Parecia que ele precisava de alguma ajuda. Seus jeans estavam sendo sustentados por uma corda, e parecia que ele usava o mesmo sapato há 10 anos.

Então eu disse: “Ei, me desculpe, você gostaria de algumas roupas?”

Ele ficou tipo “Uhhhhh”, olhando ao redor, desconfiado.

Ele só parecia perdido. Então eu cheguei um pouco mais perto e disse: “Bem, veja, aqui estão algumas roupas para você, amigo. Estão todas limpas. Só quero que fique com elas”.

Ele continuou sem dizer nada.

Então, cheguei ainda mais perto e coloquei o saco do lado dele. Uma lágrima rolou pelo seu rosto.

Eu disse: “Você está bem, mano? O que foi?”

Nós nos sentamos em um banco de cimento, e ele simplesmente desabou. Me contou toda a sua história.

Eu poderia dizer que ele era extremamente inteligente. Ele me disse que tinha um Ph.D., e estava vivendo uma vida normal. Então, há alguns anos, sua esposa, filho e um sobrinho que morava com ele tinham sido mortos em um acidente de carro.

Ele disse: “Desde então, perdi a vontade de viver. Eu perdi a vontade de cortar o meu cabelo. Eu perdi a vontade de escovar os dentes. Não há nenhuma outra mulher para mim. Minha família se foi, e eu não me importo mais. “

Ele não tinha ideia de quem eu era. Ele não sabia o que tinha acontecido comigo. Eu quase não falei. Apenas o ouvi, e ele estava tão grato que alguém no mundo se importava em sentar com ele por 20 minutos.

Ele não percebeu que aquilo foi uma terapia para mim, também.

Quando eu estava deitado, imóvel, no gramado em Dallas, eu estava completamente dependente da ajuda dos outros. Foi exatamente o oposto da mentalidade que eu tinha desde o momento em que cheguei ao Seahawks, como um novato: Você é uma estrela do rock. Você é um líder. Você é o alfa.

Então, em um segundo, você está impotente.

Eu não estaria aqui contando a minha história se os paramédicos não tivessem feito tudo perfeitamente para proteger a minha vida. E a bondade deles durou por semanas. Paul Allen, dono do Seahawks, ‘emprestou’ um jato para que eu e minha família pudéssemos ir para casa. Recebi milhares de cartas. E-mails, textos, ligações no FaceTime. Na maioria das vezes, você não tem esse tipo de apreço e amor até que você esteja morto.

Mesmo agora, que estou vivendo em Atlanta e não perto da minha equipe mais, meus amigos ainda vêm a mim, às vezes de maneiras bastante hilárias.

Marshawn Lynch me enche muito. Ele me mandou uma mensagem outro dia, e eu não conseguia parar de rir.

Ele mandou “Ei, eu peço desculpas, mano, eu te deixei”

Respondi: “O que você está falando?”

-“Eu deixei você em um dos bloqueios”

-“???????”

Alguns segundos depois, ele me envia um vídeo.

Toquei na tela, e era um vídeo de algum jogo da última temporada. Eu estou bloqueando o linebacker. Marshawn geralmente corre pelas minhas costas. Mas, desta vez, ele cortou para dentro e levou o tackle.

Ele mandou: “Droga. Desculpe, mano. Eu estraguei.”

O cara está aposentado e ainda fica vendo filmes dos jogos.

Eu: “Está tudo bem, cara. Não se preocupe com isso. “

Muitas pessoas não sabem como é o verdadeiro Marshawn. Eles não entendem que tipo de homem ele é e quanto ele faz para o seu povo em Oakland. Meu objetivo na vida é ter 10% do efeito que Marshawn tem na vida das pessoas.

Quando fui levado para o hospital em Dallas, Marshawn ficou no quarto comigo por toda a primeira noite. Esse cara me fazia rir com tanta força que estava colocando minha vida em perigo. Eu deitado na cama com um colar cervical, apenas tentando ficar parado, e ele apenas sendo Marshawn – fala com as enfermeiras, faz piadas… é um louco.

Quando olhar para trás, eu não vou lembrar dos Super Bowls mais. O que eu vou realmente lembrar são de momentos como aquela noite no hospital. Apenas o riso e o amor, mesmo nos momentos mais difíceis. Quero dizer… estava com um colar cervical, não podia me mover, chorei muito, e lá estava um cara que só queria me fazer rir e esquecer a dor.

Agora, eu só quero levar esse espírito e alegria e espalhá-lo para as pessoas que realmente necessitam. Eu quero ajudar as pessoas. Como os paramédicos me ajudaram. Como Marshawn me ajudou. Como tantas pessoas ao longo do caminho me ajudaram.

Para ser honesto, minha carreira na NFL foi como um borrão. Foi uma batalha difícil em uma montanha sem fim. Minha missão agora é ajudar as pessoas a sair das ruas e voltarem a andar com seus pés, da melhor maneira que eu puder. Eu preciso retribuir ao Senhor por me ajudar a levantar. Essa é a minha nova montanha. Estou de volta à parte inferior. Estou subindo, subindo, e eu vou encontrar com algumas pessoas incríveis ao longo do caminho. Cada pessoa que eu encontro, eu estou trazendo-os até a montanha comigo.

Quando já está tudo dito e feito, quando o conto de fadas temporário que o treinador Carroll falou acabar, temos que nos perguntar por que estamos aqui nesta terra.

Eu sinto como se finalmente eu soubesse por que estou aqui.”

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